David Alvim: uma experiência de mendicância voluntária

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Na montanha-russa do dia a dia, há episódios que nos chocam contra um muro e, na marra, a existência pisa no freio. “A vida em seus métodos diz calma”, composta e interpretada por Di Melo, profetiza a experiência de David Alvim, 32, que se envolveu em um acidente de trânsito e sentiu o tranco da brecada. “Faz alguns anos eu me envolvi em um atropelamento, terminei preso por 28 dias e, até hoje, não fui julgado. Sigo esperando o julgamento em liberdade, mas sempre vivendo com a sombra do cárcere em meu imaginário”, revela.

A cada dia que passa, o julgamento se aproxima e o sonho de liberdade se mistura com o medo de enjaulamento. “Tudo que faço é desfrutar cada dia livre como se fosse o último”, conta David, que saiu pelo mundo com a proposta de reduzir o consumo de U$ 100 por dia para U$ 10 por dia (de R$ 400 para R$ 40).

David é formado em matemática computacional pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Em Brasília, trabalhou com Ciências Atuarias entre 2012 e 2013 e calculava valor de prêmios de seguros. O último trabalho foi na Prefeitura de São Paulo, como auditor fiscal tributário municipal, entre 2014 e 2015.

Em abril de 2016, depois da experiência paulistana, ele resolveu viajar por toda América do Sul e do Norte. “Eu precisaria reduzir, e muito, meu consumo para poder viajar por mais de um ano sem trabalhar”, recorda.

A bagagem para a aventura é uma mochila de 20 litros e 5 quilos nas costas, na qual carrega 7 camisetas, 7 cuecas, 7 pares de meia, 2 bermudas, 1 calça, 1 moletom, 1 sabonete, 1 desodorante e 1 aparelho celular para poder acessar a internet. Ele relata o cotidiano dessa aventura no blog Living on Ten.

Até agora, David percorreu de Belo Horizonte ao Uruguai, de Buenos Aires até a Guatemala. Quase todo percurso foi feito por via terrestre, passando pela Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Panamá e Costa Rica. Neste janeiro de 2017 ele está na Nicarágua.

A viagem, define David, é um exercício de mendicância voluntária. A hospedagem gratuita é em casa de pessoas pelo mundo afora que ele descola por meio do site couchsurfing.com. Com o bom dedo polegar opositor ele pede carona para ter transporte grátis.

O cotidiano não é tão simples para nosso personagem da série Pessoas Inspiram Pessoas. Ele confessa que chegou a passar um pouco de frio, mas a solidariedade humana o aqueceu. “Pessoas que me recebiam em suas casas gratuitamente ainda me davam alguma roupa mais quentinha de presente, como meias de lã, touquinhas e até uma jaqueta impermeável”, agradece. Ele também compra roupas em brechós de instituições religiosas por R$ 5.

A experiência serviu ainda como um detox dos hábitos de David. Ele parou de beber álcool, de fumar, de comer carne e de frequentar restaurante e academia. “Faço alguns exercícios físicos de ioga diariamente, porque são grátis e só precisa de dois metros quadrados”, conta.

O parco orçamento desse aventureiro é destinado à alimentação. “Como basicamente frutas e vegetais que compro no supermercado e cozinho”, diz. Às vezes, em caso de emergências, ele pega um ônibus ou dorme em albergues. “Jamais durmo na rua”, garante.

Nessa jornada, David optou pela prática do Consumo Consciente. Na visão dele, o propulsor da ciranda consumista é o conceito de carreira profissional. “Uma vez que as pessoas se acostumam a trabalhar 40 horas por semana e estudar outras 20 desde a adolescência, elas perdem a noção de tempo livre”, analisa. Ele avalia que quando se trabalha 40 horas por semana ou mais não sobra tempo para nada. “E começa a ter dinheiro demais para tempo de menos”, constata.

Ele ressalta essa noção de carreira porque tanto no Brasil quanto na maioria dos países, se o salário ultrapassa as necessidades, quase nunca existe a opção de trabalhar menos para ter mais tempo livre, mesmo ganhando menos. “Então, as pessoas, querendo ou não, se veem com todo aquele dinheiro que não precisam, e começam a comprar facilidades para suprirem o tempo que elas já não têm porque trabalham mais de 40 horas”, afirma.

Uma das mudanças mais radicais do cotidiano de David foi o modo de se alimentar. Ele questiona a frequência com que as pessoas vão a restaurantes diariamente. “Perder essa conexão com o próprio alimento é terrível para o organismo. Nem se sabe o que se está comendo, a quantidade de sal ou de óleo que foi usada”, analisa.

Para David, em primeiro lugar, as pessoas deveriam trabalhar menos. “Se você é um adolescente, recomendo estudar para ser um profissional liberal e controlar seus horários. Se adulto, troque de emprego, tire férias, use seu banco de horas para fazer o que você gosta”, aconselha. Ele também sugere um questionamento pessoal sobre a necessidade de fumar, beber álcool e comer tanta carne. “Você é feliz? Você está fazendo as coisas que você gosta?”, provoca.

A dependência por bens de consumo é outro questionamento de David. “Se você tem um computador e um celular, você precisa de um tablet? Quantas roupas do seu armário você realmente gosta e usa? Que vazio você quer preencher comprando tantas coisas?”, finaliza.

 

 

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