Érika Essinger: fantasias para usar, reusar e abusar

[Modo de ler: Ouça qualquer frevo de SpokNelson Ferreira ou Ademir Araújo e mais uma tuia de mestres, ajuste os fones de ouvido, aumente o volume e entre no compasso pernambucano.]*

Em 50 dias será o carnaval, o sábado de folia cai no dia 25 de fevereiro. Que tal iniciar os planos para o reinado de Momo? Um dos sucessos dos quatro dias de luxúria são as fantasias. Em geral, o mercado oferece peças descartáveis, mal feitas e caras. Por isso, a coluna foi até a terra do frevo, Pernambuco, buscar uma alternativa alinhada ao Consumo Consciente. O ateliê By Érika Essinger tem produções cheias de estilo tendo como ponto de partida as saias de tule, os tutus. E tem mais: aceita encomendas do Quadradinho.

As lindezas carnavelescas são obra da estilista pernambucana Érika Essinger. A foliã, em certo carnaval, saiu pelo centro do Recife a procura de fantasia para ela e a filha adolescente. Encontrou produtos mal acabados, feios e caros. “Entrei numa loja, comprei 20 metros de tule e fiz duas saias, cheíssimas, uma para mim e outra para ela, comprei dois collants de ballet e bordei ambos com canutilhos”, recorda. A dupla arrasou nas ladeiras de Olinda e muita gente ficou interessada nas alegorias.

O interesse das foliãs deu impulso à produção carnavalesca do ateliê By Érika Essinger. O ano era 2012, mas em 2013 ela foi passear pela Europa e em 2014 ganhou o filho caçula. Os paetês, plumas e tules passaram a habitar para valer o apartamento da foliã-costureira em 2015.

Érika sempre flertou com a moda. Vem de uma família em que mulheres elegantes a educaram e marcaram profundamente. Ela costura desde novinha roupas para ela mesma e algumas amigas volta e meia pedem consultoria de moda e organização de guarda-roupas. Por 18 anos, foi professora de inglês em escola, e hoje ainda dá aulas particulares para adultos e faz traduções. “Em algum momento me vi descontente e decidi cursar moda, curso que ainda não consegui terminar”, relata.

Enquanto não vem a graduação, ela faz a própria moda. Na coleção carnavalesca, a estrela da festa é a saia de tule, uma peça coringa que sozinha já compõe uma fantasia, basta uma camiseta. Anualmente ela é alterada, ganha novos elementos. Ano passado foram paetês, esse ano serão fitas. “Teremos algumas saias diferentes, como bustle, que é mais curto na frente e comprido atrás e se usa com corselete e hotpant ou por cima de um collant. Dá um visual bem burlesco”, revela Érika. A única regra para a criação é o uso das artes manuais: bordados, crochês, brilhos e plumas. Tutus a parte, uma das peças carnavalescas mais interessantes e cobiçadas são os adornos para cabeças, em geral exclusivos. [Lacradores!]

A produção de fantasias pelo ateliê By Érika Essinger dança no mesmo passo do Consumo Consciente. Nada é feito com sobra. “Eu faço algumas peças avulsas, mas em uma quantidade que sei que não vai ficar empacada de um ano para o outro”, comenta. É comum a estilista passar todo o mês de janeiro em visitas aos armarinhos do centro recifense. Ela compra tudo em pouca quantidade para evitar excessos. Todos os retalhos e sobras são doados para entidades que oferecem aulas de costura para comunidades carentes.

As peças de carnaval são planejadas para serem duráveis e reutilizadas por folias consecutivas. “Hoje em dia é muito difícil achar uma fantasia bem feita, bem costurada e bem pensada. A intenção de começar a trabalhar com o carnaval tem muito a ver com descontentamento próprio também”, justifica Érika.

Foliã experimentada, Érika propõe peças com cores para pular nos conformes em blocos tradicionais como Eu Acho é Pouco(vermelho e amarelo), Amantes de Glória (verde e branco) e I Love Cafuçú (rosa e verde). “Por isso que eu adoro vender para fora. Esse lance das cores dos blocos daqui restringe o colorido do carnaval”, opina.

Fora da época de folia, o ateliê By Érika Essinger funciona ao longo do ano voltado para a produção de peças feitas manualmente, como golas, echarpes e blusas. “Faço tricô e crochê desde pequena e, para mim, é além de tudo um momento de centralização e de relaxamento”, conta. [No carnaval não tem refresco e ela para tudo e encara fantasias bonitas e trabalhosas.]

Do que sai do ateliê de Érika, 90% é feito totalmente por ela, do franzido das saias à aplicação de paetês. “É um trabalho que não dá muito para terceirizar, pois tem muitas interferências manuais e crio enquanto faço. Não dá para passar para outra pessoa uma criação que ainda está em andamento”, conta. No carnaval, as amigas aparecem para dar uma mão quando as encomendas apertam.

As matérias-primas são compradas em pequenas lojas do centro da cidade. “Sempre opto por tecidos naturais. Lãs e linhas eu compro pela internet porque aqui em Recife é muito difícil de achar lãs mais naturais, a maior parte é poliéster. Tenho preferência por novelos de coleções passadas que estão empacados em estoques”, revela.

A produção do ateliê – tanto no carnaval quando no resto do ano – é atemporal e durável, em total compasso com o conceito de slow fashion e em contraponto ao crescente fast fashion. Grande parte do que é produzido pelo ateliê é fruto de encomendas. Tudo é pensado para não haver sobra alguma quando um ciclo é terminado.

Vamos encomendar a fantasia?

Serviço
By Érika Essinger
+ 55 (81) 9 9721-1608 (para encomendas via Whatsapp)


Curadoria musical da paraense mais pernambucana em linha reta do mundo, Iara Lima, minha amiga querida e xarah.

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