Rodas da Paz: pedaladas pela mobilidade sustentável

Brasiliense já nasce com um plugue para rodas. As retas de Brasília foram traçadas para rodar de carro, moto, ônibus, patinete, skate, carrinho-de-rolimã ou bicicleta. Com uma frota de mais de 1,6 milhão de veículos motorizados, o Distrito Federal adota um padrão de mobilidade cada dia mais insustentável. Menos qualidade de vida, do ar, dos espaços públicos e do deslocamento da população. Mais aquecimento global, congestionamentos, barulho, estresse e violência.

Nessa equação na qual todos perdem, em 2016, até agosto, foram 340 vítimas fatais no trânsito do DF. Embora menor do que em 2007, quando 422 vidas se foram, o número é apenas estatística. Toda subtração é devastadora para a família que perdeu um ente querido. (Dados do Detran/DF)

Em resposta à essa bomba-relógio urbana, a Rodas da Paz trabalha para difundir ideias e práticas para uma mobilidade sustentável. Esse conceito envolve pensar uma cidade integrada, que leva em consideração a interdependência entre os tipos de transporte, a saúde, o meio ambiente, o uso dos espaços públicos, além de políticas públicas como moradia, geração de emprego e renda, fontes de energia e, especialmente, a integração de todos os meios de locomoção.

Sem fins lucrativos, há 14 anos a Rodas da Paz conscientiza, de forma lúdica e divertida, sobre a importância de proteger o pedestre, elo mais vulnerável do trânsito. Mas a principal ferramenta do grupo é a bicicleta, que tem o uso cotidiano incentivado, seja como lazer, esporte ou transporte. É um jeito de dar visibilidade à mobilidade sustentável.

Não utilizar um veículo motorizado e adotar uma bicicleta é reduzir o efeito estufa, sair do sedentarismo e se conscientizar sobre o próprio direito, e também o dos outros, aos espaços públicos. O uso de camelos tem crescido entre os brasilienses. Assim como a malha cicloviária do DF, que chegou a 419 km. Em 2011, havia pouco mais de 40 km de ciclovias; no final de 2014, chegou a cerca de 400 km. (Dados da Rodas da Paz e Secretaria de Mobilidade do DF)

Um desses brasilienses é o despachante Luciano Pires, 39. Ele mora em Vicente Pires e trabalha na Embaixada dos EUA, na 801 Sul. Três vezes por semana, desde 2014, ele pedala 36 km para ir e voltar do trabalho, que oferece vestiários com chuveiro e armários. Vários colegas, seis deles brasileiros, também vão de bicicleta trabalhar. Ele alerta, porém, para a insegurança dos ciclistas. “Já fui atropelado uma vez. Não me sinto seguro e, infelizmente, não recomendo a atividade para iniciantes devido ao risco constante que passamos”.

luciano

Gabriel Grande Almeida, 19, estudante de engenharia mecânica, é novato no pedal como modo de se locomover pela cidade. Há algumas semanas, percorre 45 km de ida e volta de casa, no Condomínio RK, até a empresa júnior onde trabalha, na UnB. Ele se sente seguro porque evita trafegar perto dos carros, opta por estradas de terra e ciclovias. A principal motivação dele foi tempo. “Gasto cerca de 1h10 de ônibus e ainda tenho que andar uns 20 minutos até a faculdade. De bike dá 1h”.

gabrielgrande.jpg

A jornalista e empresária Teresa Cristina Machado, 54, encontrou no pedal mais saúde. Ela se descobriu com uma osteopenia, um estágio anterior à osteoporose. Àquela época, mal tomava luz do sol e vivia sob as lâmpadas artificiais. Depois que passou a pedalar, há quatro anos, os índices de vitamina D melhoraram. Foi fisgada de tal modo pelo hábito que até mudou o endereço do escritório para poder ir e voltar pedalando os 8 km diários. “Eu aluguei minha sala no Brasil 21 no ano passado e mudei para a Asa Norte para me dar o luxo de ir trabalhar de bike. Vou por baixo de árvores, vejo coisas que antes não via. Tenho até corujas buraqueiras pelo caminho. Os dias ficaram diferentes”.

Para multiplicar os ciclistas como Luciano, Gabriel e Teresa, a Rodas da Paz promove ações e acompanha as principais pautas de fortalecimento da mobilidade sustentável. Isso é feito por meio da sensibilização e mobilização cidadã, do controle social e da influência sobre políticas públicas. “A Rodas da Paz é uma das principais referências do tema em nível local e até nacional”, orgulha-se a comunicadora pós-graduada em sustentabilidade Ana Lúcia Scartezini, voluntária da ONG.

A entidade promove anualmente o Passeio Ciclístico, entre julho e agosto. Realiza ações com parceiros, entre elas atividades durante a Semana da Mobilidade, em uma data próxima ao Dia Mundial Sem Carro, em setembro. Como o Desafio Intermodal de Brasília, que avalia a eficiência de diversos meios de transporte num trajeto tradicional da cidade. Para vencer a disputa, não basta chegar em primeiro lugar: o impacto ambiental e o peso do transporte no orçamento no final do mês também contam. Na oitava edição, em 2016, a moto chegou na frente, mas quem venceu foi a bicicleta.

Aos domingos, durante o tradicional Eixão do Lazer, a Roda da Paz coloca em prática o projeto Rodas no Eixo, quando os voluntários falam sobre as atividades da ONG, o uso das bikes e campanhas como a Doe Bicicleta. Muitas vezes, esses encontros incluem aulas gratuitas para adultos e crianças aprenderem a pedalar com a escola Bike Anjo. Pessoas interessadas em participar como associadas ou voluntárias são bem-vindas durante os encontros abertos. “Os que já fazem parte da Rodas da Paz se preparam para acolher e compartilhar as demandas e os projetos com os novatos”, convida Ana Lúcia Scartezini. Que tal experimentar a bicicleta e ajudar a promover a mobilidade sustentável?

Pedale com segurança

Um dos parceiros do Rodas da Paz é o Vá de Bike, um site que promove o uso da bicicleta e traz dicas para quem está começando a pedalar nas ruas. As orientações começaram a ser publicadas em 2004 e são sempre revisadas e ampliadas. Antes de engatar no camelo, vale ler pelo menos estas cinco recomendações:

  1. Como se manter seguro – 15 dicas simples para pedalar com mais segurança nas ruas
  2. Não pedale na contramão – 11 motivos para não ir contra o fluxo
  3. Ocupe a faixa – razões para pedalar na pista
  4. Cuidado com as portas – como evitar portadas
  5. E se a empresa não tem chuveiro? – 4 dicas-chave para driblar a situação

Serviço
Rodas da Paz

http://www.rodasdapaz.org.br/
contato@rodasdapaz.org.br
Associe-se
facebook/rodasdapaz

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: