Desperdício de alimentos: um mal a ser cortado pela raiz

O Brasil está entre os dez países que mais perdem e desperdiçam alimentos no mundo. A estimativa da World Resources Institute (WRI) Brasil é que, por ano, sejam desperdiçadas 41 mil toneladas de alimentos por aqui. Esse cenário tem várias implicações, entre elas a segurança alimentar. Em um planeta que abriga cerca de 7 bilhões de pessoas – com projeções para que em 2050 esse número chegue a 9 bilhões – 1 bilhão passam fome, sofrem com desnutrição e falta de alimento adequado.

“Há carência de estudos com enfoque no Brasil, principalmente, levantamentos abrangentes que cubram toda a cadeia agroalimentar e consigam estimar o quanto é desperdiçado no nosso país.”
Gustavo Porpino, 40, Analista da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa)

Ojornalista e doutor em administração pela FGV-Eaesp e foi pesquisador visitante do Food and Brand Lab, da Universidade Cornell, onde realizou pesquisas sobre comportamento de consumo de alimentos. Em sua tese, fez uma pesquisa de campo sobre desperdício de alimentos com cinquenta famílias – 30 no Brasil e 20 nos Estados Unidos.

A principal conclusão de Gustavo é que nos dois países o desperdício de alimentos pode ser elevado mesmo no contexto da classe média baixa. Apesar das semelhanças, o Brasil é um caso peculiar. Não pode ser comparado às nações da África subsaariana – que concentram grande parte das perdas na produção agrícola e pós-colheita – nem tampouco com EUA, Austrália e países da Europa ocidental – onde o desperdício está concentrado na etapa de consumo.

Aqui, tanto deficiências logísticas quanto hábitos de consumo geram desperdício. Uma das soluções apontadas, além das mudanças de hábitos domésticos, é o envolvimento de estabelecimentos comerciais que vendem alimentos nessa causa. Como as redes de supermercados, que podem ajudar a educar o consumidor a reduzir o desperdício.

Outra oportunidade para o varejo é criar ilhas nos pontos de venda com produtos próximos da data de vencimento com descontos atrativos. Os supermercados podem ainda realizar programas de redução de perdas com os próprios colaboradores e estabelecer parcerias com bancos de alimentos.

Já existem casos interessantes no Brasil. A rede Atacadão atua em parceria com a rede de bancos de alimentos Mesa Brasil, do Sesc. “A doação de alimentos trás benefícios econômicos, porque reduz o custo com o descarte, tem componente educacional para os empregados e fortalece a reputação da marca com os clientes”, avalia Gustavo.

O especialista da Embrapa observa que a cultura latina valoriza a abundância na mesa e o brasileiro não foge à regra. Famílias brasileiras tendem a gostar de ir ao supermercado fazer compras fartas, estocar alimentos em grandes quantidades e cozinhar porções generosas mesmo em tempos de crise.

Uma espécie de tabu entre os brasileiros são as sobras de alimentos. Quando trata-se de carnes, em geral, não são desperdiçadas, o que não acontece quando as sobras são de arroz e feijão. “As famílias tendem a preferir a ‘comida fresquinha’ e muitas vezes se referem às sobras como sendo ‘comida dormida’”, observa.

Uma prática que pode ser uma aliada para combater o desperdício é aderir à uma Comunidade que Sustenta a Agricultura (CSA). Essa tecnologia social facilita o acesso do produtor ao mercado e melhora a remuneração de quem produz alimentos, além de fomentar o consumo de alimentos produzidos localmente. É ainda uma forma de diversificar a dieta com alimentos saudáveis, como diversas hortaliças que muitas famílias não tinham hábito de comer.

O jornalista e dono de casa Dalton Costa, 47, há um ano adota hábitos alimentares saudáveis e para combater o desperdício. Mesmo morando ao lado do trabalho, comia todos os dias em restaurantes. Passou a preparar todas as refeições em casa e, embora não tenha parado para mensurar, sente a economia e a melhora na qualidade do que consome: menos gordura, sal, açúcar e mais diversidade de sabores. Em um ano, emagreceu 10 quilos sem grande esforço.

Diariamente ele vai para o trabalho sabendo o que sobrou da refeição da noite anterior. Quando precisa, para no mercado para comprar algum complemento e modificar o prato. Nada é desperdiçado. As sobras de folhas – talos de brócolis, de couve e de espinafre – são usadas no preparo do suco verde que toma logo cedo.

Como deixou de usar carro há uns dois anos, não faz mais compras grandes. Faz o percurso de casa para o trabalho à pé e frequenta o mercado no meio do caminho. “Sempre aproveito as promoções, principalmente de hortifrutis e carnes. Compro sempre o que está muito barato e mais alguns complementos para não ficar repetitivo”, descreve.

Há dois meses Dalton cultiva uma horta no quintal e o desperdício tem sido menor ainda, pois as sobras que não rendem outra refeição abastecem a composteira. A primeira colheita foi de couve, mas ele também plantou manjericão, orégano, alecrim, cebolinha, coentro, hortelã, capim santo, erva-cidreira, babosa, alho, abobrinha italiana, berinjela, cenoura, beterraba, rabanete, quiabo, além de abacaxi, melancia, banana, pitanga, acerola, amora, jaboticaba, mamão, limão, maracujá e cajazinho.

chef da rede Dona Lenha, Paulo Mello, 56, é um defensor ferrenho de práticas contra o desperdício de alimentos. Há um ano e meio ele modificou o prato executivo, mais pedido nos restaurantes durante o almoço. Antes, ao escolher um grelhado, o cliente tinha direito a dois acompanhamentos. Havia muito desperdício. Agora, na escolha de uma carne, frango ou peixe, há apenas um acompanhamento. O valor do prato foi reduzido. Quem estiver com o apetite maior, ainda tem a opção de pedir a segunda guarnição. “Cerca de 70% dos clientes passou a pedir apenas um acompanhamento. Reduzimos em 80% do desperdício”, celebra.

Outra iniciativa do restauranter foi tirar do papel a lei que determina que repartições públicas e estabelecimentos comerciais que vendem alimentos – hotéis, bares, restaurantes, cafés, lanchonetes etc. – forneçam gratuitamente água potável aos clientes. Embora a Lei Distrital 1954/1998 esteja em vigor há 19 anos, é solenemente ignorada.

Há um ano e meio todos os Dona Lenha oferecem água filtrada aos clientes, mas apenas 30% deles aceitam a cortesia. “Uma garrafa de água mineral custa mil vezes mais do que um copo de água filtrada. Vou aumentar o valor da água mineral sem gás para estimular o consumo da água do filtro. As pessoas devem pagar o custo ambiental da água engarrafada”, antecipa Paulo.

A nutricionista e doutoranda da Universidade de Brasília Isabella Duarte, especialista em alimentação natural e vegetariana na prevenção de doenças crônicas, destaca a importância do consumo de alimentos orgânicos, locais e de época.

Orgânicos porque ao falar sobre reaproveitamento de alimentos, recomenda-se o uso da casca, parte do fruto mais contaminada com agrotóxicos. Locais porque 50% do desperdício de alimentos ocorre no manuseio e transporte. Ao consumir um produto cultivado nas proximidades de onde mora, o consumidor reduz a probabilidade do desperdício, além de incentivar a economia local. De época porque um fruto da safra natural, além de conter mais nutrientes, compostos bioativos e consequentemente, mais sabor, exige também menos uso de agrotóxicos.

Isabella comenta que muitos produtos acabam indo para o lixo porque as pessoas desconhecem formas de consumi-los. “Em feiras orgânicas, é muito comum encontrar cestos com folhas de cenoura e beterraba que foram negligenciadas pelos compradores e também pelos feirantes que as destinam para a alimentação animal. As folhas da beterraba possuem mais ferro que a couve manteiga e tem o mesmo teor de proteína que o do espinafre, por exemplo. Então, pode-se fazer suco verde, refogados, salada elaborada, sopas e bolinhos com esses alimentos e o melhor: sem custo”, ensina. A nutricionista mantém páginas nas redes sociais nas quais ensina receitas saudáveis: Instagram e Facebook.

Receita de bolo funcional de banana com casca

Ingredientes
1 xícara de aveia ou quinoa* em flocos
1 xícara de fubá de milho
4 unidades de ovos caipiras
1 colher de sopa de fermento químico
½ xícara de açúcar demerara ou 10 und de tâmaras sem caroço**
½ xícara de óleo de coco ou manteiga ghee (ou clarificada)
1 colher sopa de cacau em pó
3 unds grandes de banana nanica ou d’água bem madura COM CASCA (massa)
5 unds grandes de banana nanica ou d’água bem madura SEM CASCA (recheio)
Canela para polvilhar
* para quem quer evitar 100% o glúten
** hidratada previamente por 30 min

Modo de preparo:
Bata em um liquidificador os ovos, óleo, açúcar até formar uma massa líquida. Aos poucos, acrescente a banana com casca cortadas em rodelas. Desligue o liquidificador e acrescente a aveia, fubá e o cacau e bata no nível 1 do liquidificador até homogeneizar a massa. Por último, acrescente o fermento e deixe no modo “pulsar”. Em uma forma previamente untada com óleo e fubá, acrescente metade da massa, faça uma camada com metade das bananas sem casca cortadas em tiras, coloque a outra metade da massa e finalize com as outras tiras de bananas. Salpique com canela a gosto. Leve ao forno médio (180o C) durante 1h.

Dica: como o bolo é úmido, o teste do garfo não funcionará, pois ainda terá muita umidade por conta da banana. Então, se atente ao tempo e à coloração da parte de cima do bolo (dourada).

Pare de desperdiçar alimentos

  1. Planeje as compras e as refeições no cotidiano familiar.
  2. Organize os alimentos colocando nas partes mais visíveis da despensa e geladeira o que está mais próximo de vencer.
  3. Reaproveite as sobras com criatividade e crie novos pratos.
  4. Substitua o hábito do ‘é melhor sobrar do que faltar’ por um estilo mais frugal.
  5. Separe as sobras das refeições em pequenas porções, e preferencialmente, congele o que não for comer nos dias seguintes.
  6. Evite fazer compras em supermercados que oferecem apenas grandes carrinhos de compra, especialmente se morar sozinho.
  7. Explore as árvores frutíferas e hortas comunitárias na sua região. O aplicativo Fruit Map é um poderoso aliado.
  8. Procure uma feira orgânica de um pequeno produtor local. O IDEC tem o mapeamento desses locais no DF e em outros estados.
  9. Associe-se a uma Comunidade que Sustenta a Agricultura (CSA), no DF já são 20.

Ferramentas para ajudar a combater o desperdício

 

 

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