Reparar objetos: alívio para o bolso e contribuição para a saúde do planeta

Um dos pilares do Consumo Consciente é o tripé Reduzir, Reutilizar e Reciclar. Nesses tempos em que o país enfrenta grave crise econômica, consertar objetos que antes seriam descartados acrescenta mais uma letra R à essa máxima: Reparar.

De acordo com dados da Associação Brasileira de Pós-Vendas em Eletroeletrônicos (Abrasa), em 2016, houve aumento de 13% na demanda de consertos. Segundo a entidade, as ordens de serviços das 1979 assistências técnicas filiadas em todo o Brasil mostram, no ano passado, um crescimento de 37% nos reparos de telefones celulares, 33% de aparelhos de som, 31% de geladeiras, 27% de fogões, 26% de lavadoras (de louças e roupas), 23% de aparelhos de TV e 19% de equipamentos de informática.

“O aumento da demanda de consertos de produtos fora da garantia, além de melhorar a economia doméstica, colabora significativamente para a sustentabilidade ambiental. Além de diminuir a obsolescência da vida útil do produto, contribui para reduzir os resíduos sólidos”, avalia o presidente da Abrasa, Norberto Mensório. A opção de consertar bens de consumo duráveis está em conformidade com a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), instituída pela Lei No 12305/2010 e regulamentada pelo Decreto No 7404/2010.

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Fabiana Melo Todorov trocou a bateria do celular e recebeu dicas para aumentar a vida útil do aparelho.

A servidora pública Fabiana Melo Todorov, 42, colocou em prática essa orientação. “Troquei a bateria em vez de comprar um celular novo. Achei um absurdo a proposta da loja de trocar o aparelho inteiro e descobri que o fabricante programa as baterias para durar de 14 a 18 meses”, relata. A troca foi feita quando o aparelho estava com 14 meses de uso e, agora, ganhou fôlego para chegar aos dois anos de uso, no mínimo.

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Roberto Cabral está há 3 décadas fazendo consertos de utensílios de cozinha.

Além de eletroeletrônicos, o reparo de outros objetos é alternativa para o consumidor preocupado tanto com o bolso quanto com a saúde do planeta. O comerciante Roberto Cabral, 52, está no ramo de reparos há 30 anos. Ele comanda o tradicional Hospital das Panelas, em funcionamento no Núcleo Bandeirante, e conserta entre 25 e 30 itens por dia. É uma alternativa para aumentar a vida útil dos utensílios de cozinha. “Eu oriento o cliente se vale ou não a pena consertar”, afirma. Os preços dos consertos variam e são informados pessoalmente.

Natural de St. Ives, na Cornualha, o inglês Graeme Hodgson, 44, que mora no Brasil há 22 anos, 10 deles em Brasília, é outro adepto de consertar. Gerente de projetos educacionais na Casa Thomas Jefferson e chefe escoteiro no Grupo Escoteiro Moraes Antas, tem uma família grande, com quatro filhos: Jesse, 23, que mora em Fortaleza (CE); Sofia, 12; Daniel, 7; e Lucas, 5 . “Com várias crianças em idade escolar, não demora muito para começar a procurar formas de fazer roupas e acessórios durarem mais tempo”, observa.

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Graeme Hodgson prefere consertar as mochilas do que comprar novas.

O hábito de reciclar e reformar está em voga na família Hodgson há mais de 10 anos. Um dos objetos que passam por reformas constantes na casa de Graeme são as mochilas escolares. Ao longo do ano letivo, é comum que esse item apresente algum defeito, como zíper quebrado, roda emperrada ou puxador que se solta ou fica preso.Graeme também adota o hábito de reaproveitar o uniforme escolar do filho mais velho pelo mais novo e boa parte do material escolar de uso individual, como réguas, borrachas, apontadores, lápis de cor, estojo, dicionário e blocos de anotações.

Além de itens escolares, a família recicla muito material do dia a dia, como embalagens, caixas de papelão e peças de carro, que se transformam em brinquedos. “Nunca deixo de me surpreender positivamente com a criatividade e entusiasmo de meus filhos ao transformar uma caixa de papelão num ‘carro’ ou ‘avião’ ou até mesmo numa ‘televisão’. Sempre orientamos nossos filhos a usarem sua imaginação ao brincar, o que de fato fazem com todo tipo de “lixo” reciclável gerado em casa”.

O planeta não suporta mais tanto consumismo e desperdício desnecessários. Na condição de educador, Graeme avalia que não adianta ensinar jovens na escola e no movimento escoteiro, por exemplo, sobre o meio-ambiente e a necessidade de desenvolvimento sustentável se os pais, em casa, não colocam em prática atitudes para gerar mudança.

Outra adepta de reformas há mais de 20 anos é a jornalista especializada em gastronomia Luciana Barbo, 38. [Vale conhecer o site www.lucianabarbo.com.br]. Ela sempre curtiu frequentar brechós e customizar roupas. “Como não tínhamos muito dinheiro – eu sou a mais velha de três filhos –, o jeito era aproveitar o que tinha. Minha mãe também fazia muita coisa pra gente e customizava roupas”, relembra.

Luciana recicla de tudo: roupas, sapatos, móveis e objetos que iriam para o lixo, como caixas e garrafas. “Tem uma sapatilha minha que já perdi a conta de quantas vezes mandei pro sapateiro. Comprei na época em que estava grávida da minha filha e olha que ela já vai fazer 15 anos”.

Na casa da jornalista, sofás e poltronas comprados em lojas de usados foram reciclados e ficaram uma graça. Além disso, Lu e as amigas fazem um bazar a cada quatro ou cinco meses. Na ocasião, elas recolhem o que não querem mais e fazem uma noite de trocas regada a boa comida e vinho. “Renovamos o armário sem ter de gastar dinheiro. Daí a gente se encontra uma com a roupa da outra e é muito engraçado perceber como a forma de combinar é diferente. Nos divertimos muito fazendo isso”.

Para Lu, não há como negar que é bastante econômico reciclar ou comprar objetos de segunda mão. “Muitas coisas antigas têm muito mais qualidade do que as produzidas hoje em dia e podem perfeitamente seguir com a gente por muito tempo”, pondera. Outro aspecto importante é preservar os recursos naturais. “Os jovens estão se voltando para o consumo consciente, por comprar qualidade em vez de quantidade, de acumular apenas o necessário. É um novo estilo de vida que tem tudo para crescer e solidificar”.

A também jornalista Renata Gonzaga é outra do time dos que preferem restaurar, reformar e consertar a descartar. Ela atribui essa prática à educação que recebeu dos pais. “Com quatro filhos, era difícil comprar novas roupas e sapatos para todos. Então, sempre procuramos aproveitar ao máximo tudo que tínhamos, e muitos itens passavam de um irmão pra outro”.

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Renata Gonzaga e a cortina de filé guardada por 8 anos sentada no sofá que herdou da irmã e acabou de ganhar estofamento novo.

A consciência do reaproveitamento surgiu com mais força depois que Renata casou. Ela sempre gostou de comprar móveis em antiquários e brechós e, quando algum parente se desfaz de um móvel, ela é a primeira da fila para pegar e reformar.

Renata já morou em quatro imóveis diferentes e até hoje tem as cortinas do primeiro apartamento, de 20 anos atrás. “Cortinas são itens da decoração que podem ser aproveitadas de um imóvel para outro, desde que você faça uma adaptação. Recentemente, voltei a morar na minha casa, que é bem grande. E como guardei todas as cortinas antigas, consegui reaproveitar pelo menos seis”. Ela pagou metade do valor que pagaria se fosse comprar cortinas novas para fazer o reparo.

Os filhos de Renata adoram sorvete e ela reutiliza os potes. Na oficina, guarda pregos, trenas, parafusos e itens de lavanderia. Na despensa, armazena arroz, feijão e farinha. Tudo recebe nome escrito com caneta para plástico. No jardim, faz furos embaixo para receber mudas de plantas para doação. “Só não uso o pote de sorvete para congelar comida. Abrir o freezer achando que tem sorvete e encontrar feijão congelado não tem a menor graça, né?”.

Renata é absolutamente contra desperdícios e não vê necessidade de trocar um objeto porque saiu de moda ou porque existe outro item mais bonito no mercado. “Na minha casa, se compramos um sapato, tiramos um do armário para doar a quem precisa. Tornei isso uma regra de ouro quando me mudei da casa de 300 metros quadrados para um apartamento de 60. Incrível como você aprende a viver com muito menos”.

Que tal tentar reciclar os eletroeletônicos, móveis e roupas que estão encostados em casa e ajudar a reduzir a pegada ecológica?

Indicação do Graeme Hodgson
Sapataria Silva
SCLN 305 Bloco B Loja 36 – Asa Norte
(61) 3447-6665

Indicação da Luciana Barbo
Sapateiro: Célio
Funciona em um quiosque localizado nos fundos do Restaurante Piantella, na 202 Sul
Reformas estofado: Daniel
(61) 99976-5260

Indicação da Renata Gonzaga
Reforma de cortina: Aline (61) 99943-3010
Reforma de sofá: Edilson (61) 99214-8093

Hospital das Panelas
Av. Dom Bosco Bloco 790, 01 – Núcleo Bandeirante
(61) 3386-8595

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