Ciência e tecnologia: em busca de soluções para a sustentabilidade

A ciência e a tecnologia são ferramentas poderosas para promover a sustentabilidade. Um exemplo prático das possibilidades dessa parceria é a construção da primeira cidade 100% inteligente e sustentável do Brasil, a Croatá Laguna EcoPark, que está sendo erguida no distrito cearense de Croatá, do município de São Gonçalo do Amarante. O projeto tem como pilares planejamento urbano e organização, arquitetura além das regras tradicionais da habitação social, tecnologia dedicada, mobilidade inteligente, vida comunitária e energia limpa.

A área escolhida para construção tem 330 hectares, alto déficit habitacional e de outros serviços. Será o primeiro protótipo real de uma cidade inteligente para população de baixa renda. Os lotes residenciais estão à venda a partir de R$ 24 mil e 300. Trata-se de uma iniciativa conjunta de duas organizações italianas, Planeta Idea e SocialFare – Centro para Inovação Social, com a StarTAU, Centro de Empreendedorismo da Universidade de Tel Aviv, que compartilham esforços para gerar impacto social e tecnológico.

Os idealizadores do projeto agendam a inauguração da Croatá Laguna EcoPark para este ano. Na primeira fase, haverá 150 casas, um porto e áreas destinadas ao lazer, comércio, serviços públicos e indústria. O empreendimento anuncia corredores verdes, ciclovias, calçadas, tratamento de águas residuais, aproveitamento de águas pluviais, coleta inteligente de resíduos, produção de energia solar e eólica, praças com equipamentos esportivos que geram energia por meio dos movimentos dos usuários, monitoramento da qualidade do ar e da água, redes inteligentes de eletricidade, água e iluminação pública, aplicativos para serviços de mobilidade compartilhada – como carros, motos e bicicletas, hortas compartilhadas, cursos de prevenção médica, nutrição, alfabetização digital e infraestrutura digital com wi-fi gratuita.

Ao fazer da ciência e da tecnologia ferramentas a serviço da sustentabilidade, a inventididade, o conhecimento e a criatividade humana são o limite. Há invenções com esse propósito espalhadas por todo o globo. O site Engenharia É reúne notícias sobre essas soluções criativas e compromissadas em preservar o meio ambiente. Como a película para telhados que pode ser uma alternativa ao uso de ar-condicionado e sem precisar de energia. A casa sustentável construída em Campo Grande (MS) que custou 25% a menos do que uma residência convencional, é resistente ao fogo e ficou pronta em seis dias. O carro ecológico movido a ar que pretende melhorar a qualidade do ar e a mobilidade urbana. São apenas alguns dos inúmeros exemplos dessa parceria a serviço do planeta.

A coluna Consumo Consciente conversou com a arquiteta e urbanista Adriana de Schueler, 52, sobre a forma com que a academia tem contribuído para resolver questões relacionadas à sustentabilidade. Ela é doutora em engenharia civil e professora do departamento de Arquitetura e Urbanismo e do programa de pós-graduação em Desenvolvimento Territorial e Políticas Públicas da UFRRJ (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro).

Na avaliação de Adriana, a humanidade depende cada vez mais da ciência e da tecnologia, por meio dos seus representantes – institutos de pesquisas, universidades, empresas e cientistas – para entender o que está acontecendo conosco e com a própria natureza. “Fazer ciência compreende, no aspecto da sustentabilidade, a busca de novos procedimentos, a compreensão, avaliação e aferição dos riscos ambientais envolvidos com o desenvolvimento etc.”, resume.

 

A doutora observa que, na atualidade, as cidades grandes estão cheias de problemas. Por exemplo, as pessoas têm medo de sair na chuva porque as ruas alagam. Ela elenca motivos para esses alagamentos, como a maior intensidade das chuvas por influência das ilhas de calor cada vez mais intensas; o crescimento urbano que impermeabiliza as cidades e dificulta o escoamento das águas pluviais; ou ainda pela abundância de lixo que entope bueiros e cria obstáculos para a drenagem.

“Difícil reduzir o consumo e, consequentemente, o lixo, que acaba por ser a sobra dos nossos desejos depois de saciados, numa sociedade de modelo capitalista em que a todo instante nos cobra a consumir mais”.
Adriana de Schueler, arquiteta e urbanista, doutora em engenharia civil e professora da UFRRJ 

Para Adriana, a saída para esse problema é aprender a dar um destino aos resíduos urbanos produzidos antes de estejam nas ruas. No Brasil, a destinação desse lixo são os aterros que, em grande parte, são vazadouros sem cuidados ambientais. A reciclagem é uma prática essencial para evitar que esses resíduos sejam aterrados e que ocorra mais degradação ambiental na busca de matéria-prima para a produção dos objetos da sociedade moderna.

A reciclagem, ensina a doutora, está totalmente amarrada ao desenvolvimento tecnológico. “É a capacidade tecnológica que permite que as frações dos resíduos recebam outro ciclo de vida útil”, atesta. Como as garrafas PET, transformadas em tecidos especiais com microfuros que permitem que uma capa proteja da chuva, deixe passar o ar e reduza o calor. Tudo isso graças ao uso da nanotecnologia. Também existe tecnologia para que os plásticos possam ser processados e se tornem óleos e que tijolos para a construção civil sejam feitos com resíduos, contribuindo para a reduzir o uso do solo para produzi-los.

Um dos projetos do qual Adriana participa é uma pesquisa conjunta da UFRRJ, Instituto Nacional de Tecnologia (INT), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) que transforma em hidrogênio o gás do lixo produzido em aterro sanitário ou em estações de tratamento de esgoto para produção limpa de energia. A importância desse estudo é que a prática comum para solucionar o problema das emissões é queimar o biogás ou utilizá-lo em motores à combustão para gerar calor e eletricidade.

“A nova tecnologia de produção de hidrogênio para alimentação de células a combustível permite o dobro da eficiência energética do que esses geradores, e, ao contrário desses, não gera nenhum subproduto além de vapor d’água”, descreve. O estudo conta com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Outra iniciativa com a participação de Adriana que alia tecnologia e ciência a serviço da sustentabilidade foi a proposta de canteiros flutuantes feito de tubos de PVC e garrafas de PET para o plantio em cavas de extração de areia, onde depois que o mineral é retirado o que sobra é um grande lago degradado e improdutivo. Neste caso, a solução ocuparia essa superfície com plantações. Esse projeto é apoiado pela Faperj. Além desses exemplos, os pesquisadores da UFRRJ têm trabalhado com o uso de biodiesel a partir de sobra de óleo de alimentos, em biodigestores para fermentação de resíduos, compostagem com vários e diferentes materiais, entre muitos outros.

Aqui no Distrito Federal, a Universidade de Brasília (UnB) mantém o Laboratório de Sustentabilidade aplicada à Arquitetura e ao Urbanismo (LaSUS) da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), em funcionamento há mais de 10 anos. Coordenado pela professora Marta Adriana Bustos Romero, o laboratório realiza desde 2015 o Prêmio LaSUS, que premia estudantes de arquitetura que desenvolvem projetos para construções sustentáveis que levam em consideração uso de materiais, temperatura, solo, ruído, fluxo de pessoas, ventilação, uso eficiente de energia, integração com a vegetação, entre outros fatores.

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