Agrofloresta: alternativa ao modelo tradicional de produção de alimentos

Os sistemas agroflorestais são alternativas aos sistemas de monocultura e criam ecossistemas completos que associam o cultivo agrícola ao florestal. A técnica aumenta a produtividade do solo e a diversidade de alimentos e reduz o desmatamento e o uso de venenos e agrotóxicos. Em um cenário ambiental ameaçado por crises hídricas e derrubada desenfreada de florestas, as agroflorestas promovem a recuperação de áreas degradadas e são uma forma de recuperar fontes d‘água.

Na semana passada, dia 11, os alunos de Ciências Ambientais da Universidade de Brasília (UnB) foram surpreendidos com a destruição da agrofloresta criada em 2009, também conhecida como Gaia (Grupo de Articulação e Interface em Agrofloresta). O ecossistema com bananeiras, canas-de-açúcar, jacarandás e várias espécies de árvores e plantas seria apresentado aos calouros do curso. Mas no local só havia terra limpa e toras de madeira. A administração da UnB justificou a medida como falha de comunicação.

O aluno do curso de Ciências Ambientais Caio Macedo, 27, comenta que a destruição da agrofloresta foi uma surpresa desagradável. Mas informa que tanto a reitoria quanto a prefeitura do campus foram muito solícitas e se comprometeram a regularizar e revitalizar os canteiros. “O apoio da prefeitura e da reitoria é fundamental para o fomento do desenvolvimento sustentável”, destaca.

Para Caio, o projeto Gaia permite examinar de perto se a alternativa agroecológica é economicamente viável, socialmente sustentável e ecologicamente correta. É possível calcular a viabilidade econômica desse modelo, avaliar de que forma pode melhorar a qualidade da produção familiar e executar inúmeras pesquisas e projetos sociais.

O futuro cientista ambiental avalia que o sistema econômico estimula a maior produção de alimentos quanto possível. Essa ganância promove a devastação de extensas áreas com vegetação nativa ou carentes de recuperação ambiental, a produção de rejeitos tóxicos ou contaminantes, além de diversos malefícios tanto para os indivíduos quanto para a sociedade.

Para Caio, esses indicadores revelam que o atual modelo de produção de alimentos é ultrapassado e apocalíptico. Mesmo que o Brasil adote normas para proteção das unidades de conservação, a prioridade econômica acaba por promover o uso predatório dos recursos naturais. Já a agrofloresta, compara, oferece abundância de alimentos, otimiza o uso do solo e gera renda.

“Nosso laboratório tem um grande potencial para o desenvolvimento técnico-científico de uma alternativa que aperfeiçoe a sustentabilidade no processo de produção e distribuição dos alimentos e também para a capacitação dos alunos de ciências ambientais em prol da gestão de recursos ambientais consumidos pela população.”
Caio Macedo, aluno de Ciências Ambientais da UnB

A agrofloresta da UnB faz parte de um curso interdisciplinar coordenado por diferentes institutos e estimula o desenvolvimento de práticas e princípios agroecológicos no ambiente universiário. O projeto gerou um quintal agroflorestal para criar um laboratório agroecológico de fácil acesso no qual são trabalhadas a educação ambiental e a agricultura urbana.

A hoje cientista ambiental Yumi Parrelego, 26, foi uma das fundadoras do Gaia. Ela concluiu o curso em 2015 e, atualmente, trabalha na Ong Mutirão Agroflorestal. Ela avalia que a aplicação do conhecimento é muito precária dentro da universidade e o laboratório funciona como um berçário de ideias que se estende para a prática e observação diária. “Me colocou em contato com tecnologias sociais de troca de saberes muito importante para a profissional que eu sou hoje”, comenta.

O projeto desperta os estudantes para a aplicabilidade real de tudo o que é a agroecologia e os coloca em contato com outros grupos e com a rede do movimento agroecológico. “Entender e fazer parte de um movimento político que se transformou numa Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica faz parte de um processo acadêmico, e isso eu tenho certeza que poucos alunos conseguem acessar com facilidade dentro da universidade”, diz Yumi.

A agrofloresta possibilita aos futuros cientistas ambientais a coleta de dados sobre o solo e a fauna, além da análise ecológica de interação entre as diferentes espécies do meio. O laboratório também desenvolveu um braço socioambiental para orientar pequenos agricultores sobre uso sustentável e conservação do cerrado. “O sistema agroflorestal foi uma das principais ferramentas utilizadas, pois com ela é possível recuperar áreas degradadas em consórcio com a produção de alimentos”, observa.

A produção de alimentos é extremamente beneficiada pelos sistemas agroflorestais. Com essa tecnologia, os agricultores de baixa renda, que não têm recursos para compra de agrotóxicos e outros insumos caros, se livram de dívidas e adotam um modelo que não requer o uso dessas substâncias. As agroflorestas promovem soberania alimentar, geram diversidade e qualidade do alimento e melhoram a qualidade de vida dos trabalhadores rurais.

Yumi atua em 11 sistemas agroflorestais no assentamento Capim de Cheiro, no município Mambaí (GO). A iniciativa se propõe a capacitar os agricultores em produção agroflorestal como uma ferramenta de recuperação de Áreas de Preservação Permanente (APPs) e a estudar a cadeia produtiva dos produtos agroextrativistas, com foco no buriti.

“Entender o processo de se colocar um alimento na mesa significa valorizar o trabalho de quem planta. Este é o primeiro passo para se chegar ao preço justo de mercado. Um produto agroflorestal é fruto de um movimento contra a exploração desse ofício, e nele conseguimos observar o valor social, ambiental e o econômico.”
Yumi Parrelego, cientista ambiental 

Gustavo Cobelo, 25, é aluno de Ciências Ambientais da UnB desde 2013 e integrou a diretoria de Meio Ambiente do Centro Acadêmico por dois anos. Antes de ingressar na universidade, cursou dois anos de Tecnologia em Agroecologia no Instituto Federal de Brasília. “Desde antes de entrar no curso eu já conhecia alguns alunos da primeira turma e sabia que faziam práticas agroecológicas dentro da UnB. Foi um dos motivos que influenciaram minha escolha”, recorda.

Como aluno e integrante do projeto Gaia, Gustavo reconhece que a importância do projeto de agrofloresta vai além de mostrar uma alternativa agroecológica de produção e favorecer a biodiversidade. “É também uma proposta de participação social, em que todos possam aprender, plantar e colher os frutos de forma consciente e integrada.”

Gustavo relembra a proposta do antropólogo Darcy Ribeiro, que dá nome ao campus da UnB, para as universidades. “Que sejam espaços em que o conhecimento acadêmico vá além desse espaço e que consiga atingir a comunidade através da pesquisa e extensão, e também o diálogo participativo”, cita.

A agrofloresta da UnB é uma vitrine para um modelo biodinâmico de produção que aproveita uma grande diversidade de plantas em pequenos espaços, descreve Gustavo. O laboratório buscar criar argumentos, trabalhos e pesquisas que comprovem os efeitos degradativos das monoculturas e uso de agrotóxicos. Isso sem falar na relevância de ocupar o espaço urbano, dentro da universidade, para mostrar que não é necessário estar ou ter uma chácara ou uma fazenda para plantar e colher, basta uma área de uso coletivo consciente com um manejo ecológico do solo.

Gustavo destaca ainda as vantagens para o consumidor. As agroflorestas, afirma, incentivam pessoas a consumirem alimentos de forma diversificada, respeitando as safras naturais e livre de agrotóxicos. Ele cita que algumas Comunidades que Sustentam a Agricultura (CSA) no Distrito Federal adotam o sistema agroflorestal na produção de alimentos.

“Acredito que as agroflorestas são a grande bandeira desse movimento em que podemos nos tornar mais conscientes e coprodutores do nosso alimento, uma vez que nos aproximamos do agricultor e das outras pessoas que consomem os produtos. É uma forma de criar mais integração da comunidade e também de dar mais valor a quem planta o alimento.”
Gustavo Cobelo, aluno de Ciências Ambientais da UnB

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