Economia Criativa: o talento humano é o principal recurso produtivo

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Há uma revolução em curso no modo de produzir e de consumir da sociedade e a linha mestra é a Economia Criativa. Os recursos produtivos desse segmento são a criatividade e o capital intelectual, que geram bens e serviços diferenciados e de alto valor agregado. O talento das pessoas é a peça mais importante nessa nova economia. A coluna Consumo Consciente inicia hoje uma série de reportagens que serão publicadas aos domingos para revelar os meandros dessa área produtiva.

 Pessoas criativas criam e pensam fora da caixa em busca de soluções para questões que já existem e até para as que sequer estão totalmente formuladas. Esses empreendedores conectam pontos do mercado, estabelecem uma relação orgânica entre desenvolvimento, produção e consumo e lubrificam as engrenagens da economia. Essas características explicam o porquê de a Economia Criativa avançar na conquista de espaço e alcançar desempenho melhor do que os outros setores da atividade econômica.

No Brasil, os empreendedores que desbravam a Economia Criativa foram menos impactados pela crise quando comparados à totalidade da economia nacional. A participação do PIB Criativo estimado no PIB Brasileiro cresceu de 2,56% para 2,64% no período 2013-2015. Esse segmento gerou uma riqueza de R$ 155,6 bilhões para a economia brasileira em 2015, o que equivale à soma dos valores de mercado das marcas Facebook, Zara e L’Oréal juntas.

Esses dados são do Mapeamento da Indústria Criativa no Brasil 2016, realizado pela Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan). O levantamento está na 5a edição e contempla 13 segmentos criativos agrupados em quatro áreas: Consumo (Design, Arquitetura, Moda e Publicidade), Mídias (Editorial e Audiovisual), Cultura (Patrimônio e Artes, Música, Artes Cênicas e Expressões Culturais) e Tecnologia (Pesquisa &Desenvolvimento, Biotecnologia e Tecnologias da Informação e Comunicação).

O mapeamento abordou a Indústria Criativa também sob a ótica do mercado de trabalho e mostra que 239 mil empresas do setor, em 2015, ofereceram 851,2 mil postos de trabalho com salários 2,5 vezes maiores que os da economia tradicional. Os profissionais criativos aumentaram a participação no mercado de trabalho de 1,7%, em 2013, para 1,8%, em 2015. Embora pequeno, esse crescimento é relevante diante do fechamento de quase 900 mil postos de trabalho no total do mercado de trabalho (-1,8%).

O Distrito Federal ocupa a quinta posição das unidades da Federação no quesito participação dos empregados criativos no total de empregados, com 1,6% em 2013 e 2015. Com relação à remuneração média mensal dos profissionais criativos, no mesmo período e a preços de 2015, o DF ocupa a segunda posição: R$ 8.278 em 2013 e R$ 8.190 em 2015. Em todo o país, a remuneração média mensal foi R$ 6.493 em 2013 e R$ 6.270 em 2015.

Lara Franco, 42, analista da Unidade de Atendimento Setorial Comércio e Serviços do Sebrae Nacional, destaca que os números do levantamento feito pela Firjan demonstram a relevância do segmento. “Podemos ter uma noção do potencial dele ao compararmos os dados brasileiros com a atual meca da Economia Criativa, o Reino Unido. As indústrias criativas representaram um valor adicionado anual à economia de 84,1 bilhões de libras em 2014, com crescimento anual de 8,9%, e geração de 2,9 milhões de postos de trabalho, que são 9% do total”, enfatiza.

larasebrae“O histórico de atuação do Sebrae Nacional nessa nova economia está em projetos voltados para empresas criativas. Priorizamos os segmentos de Artes Visuais, Comunicação, Design, Música, Audiovisual, Games, Startups, Softwares, além do de Cultura e Entretenimento, Expressões Culturais, e Patrimônio e Artes”.
Lara Franco, analista do Sebrae Nacional

O advogado Cláudio Lins de Vasconcelos, 44, foi secretário de Economia da Cultura do Ministério da Cultura e é especialista neste segmento. Mineiro de Belo Horizonte, ele é doutor pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e mestre pela Universidade de Notre Dame. Ele destaca duas razões para o crescimento da área criativa em meio à crise econômica: uma estrutural e outra conjuntural.

Sob a ótica estrutural, Cláudio avalia que o Brasil é vocacionado para atividades criativas, como artísticas e culturais. O país, diz, também tem boa presença internacional em áreas como audiovisual, publicidade, moda, design, literatura, dança contemporânea e artes visuais. “É semente da Embrapa, avião da Embraer e cultura. O resto é commodity: soja, aço, proteína animal e alguns semimanufaturados de baixo valor agregado”, relaciona.

A razão conjuntural está relacionada às novas formas de disseminação de conteúdo na internet, que ajudam a dar vazão a boa parte da “oferta reprimida” de conteúdo cultural. Há ainda mudanças legislativas, como no audiovisual, que criaram uma forte demanda por conteúdo nacional, em especial na TV por assinatura.

“Novos postos de trabalho foram criados e tudo isso atraiu o interesse de investidores, talentos, prestadores de serviço etc. Toda essa força de trabalho criativo estava represada ou subutilizada e passou a alimentar um mercado que era muito diferente, e certamente muito menor, há coisa de uma década. Com crise e tudo mais”, constata.

claudiolins“O Brasil tem mais chances agora do que nunca de influenciar os rumos do desenvolvimento econômico mundial, pois nossas vantagens competitivas nesse tipo de atividade decorrem de aspectos inerentes à nossa formação histórica, como a diversidade, o senso de humor, a cordialidade.”
Cláudio Lins de Vasconcelos, advogado

Aqui no Distrito Federal, os exemplos de empreendedores criativos são abundantes. A Pântano de Manga, por exemplo, desenvolve produtos e estampas autorais feitas à mão e inspiradas na Capital Federal. Criada em 2011 como um coletivo de criação, desde 2016 passou a ser uma marca e inaugurou uma nova fase do empreendimento.

Sediada na W3 Sul, é formada pela designer gráfica Luísa Vieira, 31, a arquiteta Marina Fontes, 30, e a designer de moda e diretora de arte Nadine Diel, 30. Brasília é a inspiração para executar um conceito urbano ao criar padronagens e estampar roupas e produtos para casa. “Nosso processo produtivo conta com parceiros e fornecedores da cidade, investindo e integrando a produção e o consumo da economia criativa brasiliense”, destaca o trio.

No dia do aniversário da cidade, na próxima sexta-feira, 21 de abril, a marca lançará a coleção inspirada nas grades de ferro das casas da W3 Sul, a Grades de Brasília, no Café Objeto Encontrado (102 Norte), das 12h às 17h. O novo trabalho abraça dois caminhos: as formas geométricas das grades de ferro e as linhas retas, arqueadas e orgânicas com suas sobreposições. Essa dupla de elementos forma a base da nova coleção e é o ponto de partida para sobreposição de manchas, de cheios e vazios, e para novas texturas e desenhos gráficos. (Ensaio na galeria de fotos)

pantano

“Queremos colocar o nosso processo criativo e referências visuais como o principal atrativo dos produtos. Dessa forma estamos contribuindo com a economia criativa. É o segmento de mercado no qual temos algo a oferecer.”
Luísa Vieira, Marina Fontes e Nadine Diel, sócias da Pântano de Manga e empreendedoras criativas

Outro exemplo brasiliense da força da Economia Criativa é a Nós – Mercado Criativo. A primeira loja foi inaugurada em abril de 2016, no comércio local da 315 Norte. Apenas sete meses depois, ocupou uma pop up store (loja temporária) no shopping Iguatemi Brasília. No dia 1º de abril deste ano, migrou de vez para uma loja maior e permanente no mesmo shopping.

O espaço coletivo e colaborativo reúne um mix completo de produtos, de moda a objetos de decoração, com roupas infantis e peças plus size, acessórios para vestir da cabeça aos pés, além de quadros, almofadas e terrários de suculentas. São mais de 70 marcas locais, do Rio de Janeiro e de Goiás. Esse importante passo em meio a crise econômica revela que o empreendimento criativo está vacinado contra a recessão.

Lili Brasil, sócia-fundadora da Nós – Mercado Criativo, atribui essa imunidade à crise às mudanças que o mundo vem passando. Para ela, certas formas de viver já não são mais aceitas e entre elas está a forma de consumir. Como empreendedora, ela sempre teve dificuldade em se enquadrar em certos padrões e crê que isso ocorra com outros criativos também. “Há um desejo enorme de fazer algo diferente, de se relacionar de forma diferente e de consumir algo novo e ter experiências diferentes”, observa.

lilieconomiacriativa“A economia criativa surge desses novos desejos, dessa nova forma da gente se relacionar com a vida e com as pessoas. Empreender coletivamente vem do desejo da gente poder crescer juntos, oferecer oportunidades, dividir custos, aprender uns com os outros, trocar contatos e formar uma rede colaborativa.”
Lili Brasil, sócia-fundadora da Nós – Mercado Criativo

Economia Criativa no Reino Unido 

A primeira a reconhecer oficialmente a importância de áreas ligadas à criatividade e à tecnologia para o crescimento econômico foi a ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, em 1983. Mas apenas em 1998 uma força tarefa do governo britânico fez um mapeamento dessas atividades que revelou a atividade como sendo a força motriz do futuro econômico daquele país. O estudo constatou que pequenas e médias empresas pertencentes às indústrias criativas representaram 8% da atividade econômica total e empregaram entre o 7% e 8% da população ativa.

Quando o levantamento foi repetido, em 2001, os pesquisadores descobriram que as indústrias criativas cresciam mais rápido do que os outros segmentos da economia e geraram novos postos de trabalho duas vezes mais rapidamente. Anos depois, em 2003, o jornal The Financial Times registrou que as indústrias criativas haviam contribuído mais para a economia britânica do que todos os serviços financeiros da City of London (distrito financeiro de Londres), que até então era considerada o motor mais importante do seu sistema econômico.


Saiba mais

Na internet
Projeto Draft – Projeto editorial dedicado a cobrir a expansão da inovação disruptiva no Brasil. Uma plataforma de conteúdo, serviços e eventos montada para fazer a crônica da Nova Economia, da Cultura Maker, dos novos empreendedores brasileiros.
Lala Deheinzelin – Site da especialista em Economia Criativa & Desenvolvimento Sustentável e criadora e coordenadora do movimento internacional Crie Futuros.
Livros e publicações
Economia Criativa – Como ganhar dinheiro com ideias criativas (John Howkins, Ed. M.Books) – A obra trata da relação entre a criatividade e a economia. A criatividade não é algo novo, tampouco a economia, mas a novidade está na natureza e na extensão da relação entre elas e como elas se combinam para criar valor e riqueza extraordinários.
Empreendedorismo Criativo (Mariana Castro, Ed. Portfolio-Penguin) – Conta a história de start-ups criativas – entre elas, Inesplorado, Perestroika, Mesa & Cadeira, Mandalah e Flag – a partir de temas como ‘o que é’, ‘como se tornou realidade’, ‘modelo de negócio’ e ‘futuro’.
How To Understand Creative Economy in Brazil – Guia da Amcham voltado para investidores estrangeiros sobre a economia criativa no Brasil.
Desejável Mundo Novo (Lala Deheinzelin) – Quase todas as maravilhas da engenhosidade humana existem por que foram antes sonhadas e desejadas. Essa é a essência do texto realizado de forma colaborativa pela especialista em economia criativa.
A Economia Criativa: Um guia introdutório (John Newbigin) – Publicação do British Council que contribui para o conhecimento e experiência coletiva com relação a este setor tão novo e importante.
Relatório de Economia Criativa 2013 – A criatividade e a inovação humanas, tanto individual quanto em grupo, se tornaram a verdadeira riqueza das nações no século 21. É o que diz o estudo da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). A publicação mostra que a Economia Criativa é um dos setores que cresce mais rápido no mundo econômico, não apenas em termos de geração de renda, mas também na criação de empregos e em ganhos na exportação, e se tornou uma poderosa força transformadora no mundo de hoje.
Vídeos
PressPausePlay – Documentário dirigido por David Dworsky e Victor Köhler com entrevistas com alguns dos criadores mais influentes do mundo da era digital.
Entrevista com John Howkins – O autor britânico que inventou o termo Economia Criativa conversou com o Draft em 2014, em uma de suas visitas ao Brasil.

 

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