Flávia Amadeu Design Sustentável: comércio justo no coração da Amazônia

O primeiro impacto com as joias orgânicas feitas de borracha amazônica pela designer, pesquisadora e empreendedora social Flavia Amadeu, no meu caso, foi de encantamento estético. Ao conhecer o caminho percorrido por aquelas peças coloridas, elásticas e com design e acabamento sofisticados, passei a ter admiração e curiosidade pelo trabalho da loira natural e ruiva ocasional com sorriso franco e em total sintonia com o consumo consciente.

A paixão pela borracha surgiu em 2004, quando a brasiliense Flavia, 38, já graduada em Desenho Industrial pela Universidade de Brasília (UnB), ingressou no mestrado em Artes, também na UnB, para pesquisar novos materiais e wearable computing (tecnologias vestíveis). Durante o curso, conheceu a borracha colorida Folha Semi-Artefato (FSA), que estava sendo produzida por seringueiros da Amazônia, sob orientação do Laboratório de Tecnologia Química (Lateq) da UnB. Além de dispensar a queima realizada nas usinas tradicionais de processamento, essa borracha usa tecnologias simples e de baixo custo, gera poucos resíduos poluentes e oferece aos seringueiros e suas famílias oportunidade de trabalho e renda na floresta.

A FSA é uma manta colorida que pode ser usada na fabricação de vários produtos artesanais e de design, como sapatos, acessórios de moda e joias. Ao longo desses 13 anos, Flavia vem trabalhando em parceria com o Lateq/UnB para aprimorar os materiais emborrachados e diretamente com comunidades seringueiras no Acre e no Pará. Confira neste vídeo como é o trabalho das comunidades extrativistas da Amazônia.

Apoio às comunidades da Amazônia

O foco do trabalho de Flavia é apoiar produtores locais por meio do design e do artesanato. No contexto da borracha amazônica, já prestou consultorias para grandes empresas como a Sky Broadband-UK e a WWF-UK e trabalha com parceiros como a SOS Amazônia, a WWF-Brasil, a ONU Mulheres, a top model inglesa Lily Cole, além das cooperativas, associações e governos locais. Ela tem uma marca que leva o seu nome, Flavia Amadeu Design Sustentável, é PhD em Design e Sustentabilidade pelo London College of Fashion, na Inglaterra, onde foi supervisora de mestrado e trabalhou em uma pesquisa ligada ao Centre for Sustainable Fashion (CSF) [Centro de Moda Sustentável].

Seu trabalho de design de joias com a borracha amazônica é reconhecido nacional e internacionalmente. A coleção Joias Orgânicas foi destaque no Museu de Design de Londres (2011) e exposta na Bienal Brasileira de Design (2010), na Semana de Design de Milão e na Dinamarca e muito mais. Em 2016, foi uma das premiadas no concurso de design Objeto Brasileiro, do Museu A Casa, em São Paulo (SP), com a coleção de cerâmica da Serra da Capivara e borracha amazônica, a Seringueira. Foi uma das selecionadas para participar do programa Desafio Amazônia – Negócios para a Floresta em Pé, da Natura e Artemisia.

Flavia é capaz de falar durante horas sobre a borracha da Amazônia. Desde o modo de extração, passando pelo melhoramento e o trabalho com as comunidades extrativistas. Ela iniciou o empreendimento com o material em 2007, quando começou a vender suas joias orgânicas. “Já tinha terminado o mestrado e aperfeiçoei o acabamento. Eu me apaixonei pelo material, pelo trabalho do Lateq, pela Amazônia e por toda a história daquela borracha. Eu me lembro de falar que seria a especialista deste material. E me tornei, né?”, orgulha-se.

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Foto: André Carvalho

“A parceria com os seringueiros melhorou muito ao longo dos anos e, hoje, tenho contratos com cooperativas de extrativistas. A cooperativa foi uma grande conquista nossa, de construção de relações, porque facilitou toda a questão de transporte, logística e burocracias. Antes, a gente trabalhava muito na base do favor, pedindo para parceiros. A comunicação ficava muito difícil com as comunidades, demorava muito para chegar, pegar a borracha. Com a cooperativa tudo fica mais viável.”
Flavia Amadeu

Flavia está sempre indo à Amazônia e trabalha diretamente com produtores, ongs e governos locais e parceiros da iniciativa privada. Ela destaca a importância dessa rede de parceiros, na qual um ajuda o outro, e da própria floresta para o seu trabalho. “As seringueiras estão espalhadas pela Amazônia, são árvores nativas e daí a importância da geração de renda. Quando as famílias seringueiras vivem do extrativismo com dignidade, elas protegem as áreas em que vivem”, descreve. Essa proteção ocorre, inclusive, em reservas florestais, chamadas de colocações por essas comunidades.

A empreendedora social faz questão de ressaltar que o papel de guardiãs da floresta Amazônica das comunidades extrativistas só pode ser desempenhado se elas conseguirem viver dos recursos da florestas. Trata-se de um ponto fundamental do empreendedorismo socioambiental na floresta: a geração de renda vem da floresta e ela retorna para a floresta. Além de ser uma maneira de manter as famílias unidas.

Ela observa que os produtores extrativistas, não só os seringueiros, mas as pessoas que trabalham com açaí e castanhas, por exemplo, têm um conhecimento profundo da floresta e de sua biodiversidade, assim como sobre os desmatamentos, as queimadas e a migração e esse conhecimento também é preservado. “A questão social está completamente interconectada à floresta Amazônica”, diz.

Todo o trabalho feito por Flávia tem o consumo consciente impresso no DNA. “Eu tento, na medida do possível, trabalhar de uma forma ética, ecológica e social com as comunidades e também for delas”, comenta. Esse compromisso com o planeta tem início na concepção das joias orgânicas. O corte das peças deixa um espaço negativo, que sempre vai virar uma nova peça. “Muitas das minhas peças são criadas dos espaços de outras. Eu trabalho com o mínimo de resíduos e de água”. No momento, a designer está utilizando as sobras e rebarbas das folhas de borracha em um trabalho artesanal com um grupo de mulheres no Riacho Fundo (DF), a Cia do Lacre, para produção de bolsas.

Inquieta, tem outro projeto em andamento com tecido emborrachado desenvolvido pelo sempre parceiro Lateq/UnB. Atua ainda para integrar cadeias produtivas na Amazônia. Atualmente, são colocadas essências na borracha para amenizar o forte cheiro do látex. Em conjunto com o Lateq/Unb e com a Fundação de Tecnologia do Estado do Acre (Funtac) está trabalhando para que esses aromas sejam feitos de óleos naturais extraídos também da floresta por outras comunidades extrativistas. Além da pomada que limpa a borracha e está sendo aprimorada para ser totalmente de origem vegetal e natural.

Todo o talento de Flavia está voltado para melhorar a qualidade de vida das comunidades extrativistas. Além de comprar a borracha para desenvolver produtos, ela apoia o artesanato local e ensina grupos de mulheres e com artesanato próprio. “Oriento se precisa melhorar o acabamento ou a inserção no mercado. Um dos grandes focos do meu trabalho é a capacitação de mulheres e jovens para proporcionar a geração de renda na floresta com a borracha, com outros materiais, mas principalmente com a borracha”.

Multitarefas, ela ministra palestras e oficinas e presta consultoria em empreendedorismo social na Amazônia. É sócia do noSSo Estúdio Design e representante da Fashion Revolution em Brasília. Em duas semanas, relançará peças da primeira coleção das joias orgânicas. “Decidi que chegou a hora de fazer uma nova produção, uma nova edição da coleção antiga e tem mais peças vindo por aí”, antecipa.

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