Negócios sociais: economia criativa atuando pela inclusão social

A desigualdade social é uma fratura exposta das democracias capitalistas. Sociedades realmente democráticas se preocupam em reduzir a desigualdade de oportunidades e em aumentar a inclusão dos cidadãos, mas essas questões não são prioridades para o Mercado. Os negócios sociais funcionam como o elo entre a democracia e o capitalismo, tal qual o azul e o amarelo conectados no amor de Paulo Leminski. Essa modalidade de empreendimento é verde, sustentável, inclusiva e mergulhada na criatividade, no talento humano e no amor ao próximo.

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Um negócio social procura impactar positivamente comunidades com geração de renda e autonomia financeira. Considera questões sociais e ambientais e também a viabilidade econômica, estratégias e modelos de negócios. Há duas correntes de empreendedores sociais sobre distribuição de lucro, uma contra e outra a favor. À margem desse debate, todos os negócios sociais compartilham dos mesmos fundamentos básicos. Na prática, um empreendimento social funciona como organização com variadas naturezas jurídicas – ONG, Oscip, cooperativa, associação e coletivos.

Empreendimentos sociais operam orientados pela lei da oferta e da demanda e precisam conhecer o público-alvo, as oportunidades e os riscos e utilizar mecanismos de mercado para alcançar os propósitos sociais. Precisam gerar a própria receita com a venda de produtos ou prestação de serviços. A principal diferença entre um negócio social e o tradicional é a motivação socioambiental e a conciliação entre inclusão social e lucro. Um empreendimento social é desenvolvido em benefício de um grupo de pessoas e parte da análise da realidade social e do compromisso com o desenvolvimento do território.

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Histórias de negócios sociais no Distrito Federal

A Cufa (Central Única das Favelas) começou a atuar no Distrito Federal em 2003, com trabalho voltado para as comunidades do DF e Entorno. Desde 2013, é presidida por Bruno Kesseler, administrador e fundador da ONG Projeto SA – Servir e Amar. “Hoje existe uma realidade dentro das favelas em que os moradores são cada vez menos dependentes”, constata.

Para Bruno, as comunidades das periferias esperam menos do poder público, e entendem que há uma necessidade clara de criar e produzir soluções para seus desafios cotidianos a partir daquilo que está ao seu alcance. “Diante dessa realidade, surgem diversas figuras e lideres orgânicos que percebem seu papel na sociedade, colocando para fora seus pensamentos e ideias.”

bruno“O papel dos negócios sociais aliado ao setor da economia criativa ocupa um papel fundamental no processo de desenvolvimento sustentável, tanto social, quanto econômico, pilares da CUFA, gerando novas oportunidades, empoderamento, protagonismo e autonomia.”
Bruno Kessler, Cufa-DF

Hip Hop

O Hip Hop é a principal forma de expressão da Cufa. Esse estilo de vida está ligado à afirmação da identidade das periferias e serve como ferramenta de integração e inclusão social. O movimento há 20 anos sobrevive se delineando nos guetos brasileiros. Mesmo sem o apoio da mídia, cresce e se fortalece a cada dia, arrebata admiradores de todas as camadas socioconômicas e deixa para trás o rótulo de “cultura do excluído”.  Ao longo de sua existência, o Hip Hop vem criando um movimento forte, atraente, com grande potencial, e segue abrindo portas para novos nichos comerciais ainda não explorados.

Um dos pilares da cultura Hip Hop é o Rap, estilo musical no qual a letra é mais importante do que a melodia e que utiliza sobretudo rimas. Aqui no DF, vale à pena conhecer o trabalho da rapper Vera Verônica. Nascida em Brasília, ela é cantora, professora e feirante e canta Rap desde os 13 anos. Ela foi a primeira mulher a cantar o estilo no DF e Entorno e canta para ter voz e para dar voz àqueles que acha justo. Em seu site, conta que a difícil realidade social de vários jovens que vivem em condições desumanas despertaram nela o desejo de ensinar além do ofício de professora, ensinar com a voz, ensinar com o rap.

A página descreve Vera como defensora incessante dos direitos humanos, da igualdade de gênero, da igualdade racial e do combate à homofobia e faz da palavra cantada um instrumento de conscientização. É mulher, negra e tem 25 anos de carreira. Engajada no trabalho comunitário, faz parte do projeto pedagógico da Acesso Organização da Sociedade Civil de Interesse Público. Além disso, é consultora na área de Gênero, Diversidade e Orientação Sexual, educadora em projetos socioculturais, participou do projeto governamental Brasil Sem Homofobia. Este ano, comemora 25 anos de carreira e celebra com gravação de disco e DVD ao vivo.

Ouça o CD Mobunjá

Financiamento coletivo

O Solidário é uma plataforma que une pessoas, instituições e projetos que precisam de financiamento a pessoas que querem ajudar. A plataforma reúne iniciativas em quatro áreas: social, saúde, meio ambiente e animais. Graças à transparência da ferramenta, é possível acompanhar o longo caminho para despertar a generosidade das pessoas. Os empreendedores sociais são os responsáveis por cadastrar as iniciativas para arrecadar recursos.

Jacqueline da Cunha Sa Rego, empreendedora do Solidário, acaba de finalizar uma oficina gratuita de Financiamento Colaborativo e Captação Empoderada de Recursos. O treinamento foi promovido em parceria entre o Solidário e o Dragon Dreaming, sistema integrado e um método completo para a realização de projetos criativos, colaborativos e sustentáveis.

“Com a intenção de ampliar e potencializar as possibilidades dos projetos sociais que chegam à nossa plataforma, percebemos a importância de atuarmos no sentido de ensinarmos sobre o que é preciso para realizar uma campanha de arrecadação virtual de sucesso”, comenta Jacqueline.
Jacqueline Sa Rego: com o Solidário, une pessoas que querem ajudar

jacquelinesolidario“O trabalho de capacitação de empreendedores sociais foi realizado porque o Solidário não é apenas uma plataforma de financiamento coletivo, queremos ajudar as pessoas e instituições que possuem projetos a entender o processo do crowdfunding social para utilizarem o Solidário da melhor maneira possível, captando recursos com sucesso e viabilizando seus diversos projetos.”
Jacqueline da Cunha Sa Rego, Solidário


Economia Solidária

A economia solidária é uma forma de organização do trabalho que surgiu como alternativa de geração de renda e de inclusão social. Trata-se de um jeito diferente de produzir, comprar, vender e trocar o que é necessário para viver, sem que haja vantagem para um ou outro lado da negociação. As atividades da economia solidária se opõem à exploração do trabalho e dos recursos naturais e promovem o desenvolvimento sustentável, ou seja, o crescimento econômico em harmonia com a proteção da natureza.  No Brasil, o economista austríaco com cidadania brasileira Paul Singer foi titular da Secretaria Nacional de Economia Solidária (Senaes). Estudioso da economia solidária, se tornou uma das referências internacionais no tema, com vários livros publicados.

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Foto: Jailton Garcia/RBA

Referências

Como combinar capitalismo e democracia no mundo hoje, segundo este teórico alemão (Entrevista do cientista político Wolfgang Merkel para o Nexo Jornal publicada em 7/5/2017)

81WlDgnRgL-208x300Por que as Nações Fracassam (Ed. Alta Books) – Neste livro, Daron Acemoglu e James Robinson tratam das diferenças abissais de receita e padrão de vida que separam os países ricos do mundo, como Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha, dos pobres, como os da África subsaariana, América Central e do Sul da Ásia. A principal conclusão do livro é que sociedades que permitem uma relação umbilical entre sua elite econômica e o grupo que ocupa o poder tendem a produzir políticas públicas concentradoras de renda e antidemocráticas.

Economia Solidária

Entrevista de Paul Singer para a Rede Brasil Atual (2014)
Economia solidária como estratégia de desenvolvimento Uma análise crítica a partir das contribuições de Paul Singer e José Ricardo Tauile (Ipea, 2011)
Paul Singer: Economia Solidária no Brasil (vídeo)

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