Meu tempo entre costuras

Minha primeira infância foi entre as costuras da minha mãe. Ela complementava o orçamento da casa fazendo todo tipo de peças para fora. Até passar em um concurso público, era uma peleja danada. Não é novidade que os trabalhos manuais são subvalorizados, que quem paga acha que pode tudo e aquela novela do desrespeito que estamos calejados de saber.

A saudosa Dona Juju virava noites debruçada sobre a máquina de costura e a tábua de passar roupa. Já servidora pública, chegou a ter uma confecção de malhas em sociedade com a irmã. Mas o projeto era trabalhoso e mal remunerado e acabava com a saúde delas e foi encerrado.

Da minha parte, eu adorava vestir as roupas exclusivas que mamãe e minha tia costuravam para mim. À época da boate Zoom, no Gilberto Salomão, fazia parte do meu ritual de diversão ter uma peça feita para mim todo final de semana para me esbaldar nas matinês dos domingos à tarde. Mas nunca tive paciência para aprender e nem minha mãe tinha paciência para lidar com a minha ansiedade de ver pronto e vestir logo.

Quando entrei no mundo do Consumo Consciente, me deu uma vontade danada de aprender a arte da costura. Um pouco para resgatar memórias afetivas da minha mãe. Outro tanto para entender a produção das roupas, como eu poderia avaliar a confecção de uma peça, o custo etc.

Na minha jornada sobre Consumo Consciente, uma das histórias que contei foi a do projeto da Rosa Cordeiro, o Costuras e Vinil. [+ Costuras e Vinil: aulas de corte e costura com boa música]. Fiquei morrendo de vontade de fazer um dos cursos e planejei durante meses me inscrever. Até que ganhei de presente de Natal uma semana de aulas no Rainha da Costura de Verão da minha tia Lídia Glória.

A primeira aula foi no dia 15 de janeiro. Foi um reencontro com um universo lá da minha primeira infância. O aroma de uma entretela sob o ferro quente me proporcionou uma viagem afetiva. Fiquei apaixonada.

Na primeira lição, aprendi a colocar a linha da máquina, a encher a bobina e a manejar os pedais. Entender que o tecido é como um volante, que você é quem controla. Preguei zíper e costurei duas bolsinhas. Fiz uma saia com retalhos que achei no ateliê. Encarei um short, me exibi tirando o molde e costurando uma calça saruel e ainda fiz uma camisa masculina para um dos meus filhos. Modéstia à parte, arrasei.

Eu arrasei porque tive suporte. A Rosinha e as talentosas Natália e Vitória me receberam e todos e todas que ali se aventuravam naquele novo mundo de braços e corações abertos. Acolhimento, bom-humor e música boa.

Fiquei tão animada que até comprei uma máquina de costura Singer dos anos 1970, igual a mim, e estou aqui apanhando para fazer o básico. Mas cheia de entusiasmo.

Agora, a notícia de que o Costuras e Vinil cerrou as portas me deu um frio na barriga e uma pontada no coração. É assim a vida, como a costura, tem hora que embola a linha. Não dá para insistir. Tem que respirar fundo, cortar o bololô para iniciar de novo.

Eu quero agradecer à Rosinha e sua equipe por esse projeto tão lindo que abriu ou reabriu as portas da costura para mim e para um monte de gente. Vai fazer falta. Mas tenho certeza de que vem coisa muito bacana por aí, porque talento e carinho ali é igual mato.

Compartilho com vocês a mensagem linda que a equipe do Costuras e Vinil mandou para quem participou desse projeto:

“A costura é um encontro. Uma linha que vem e começa a juntar cores, estampas, tecidos. Pega formas diferentes e faz com que elas formem algo maior e mais completo. Muitas vezes, texturas que pareciam não conversar entre si ficam ótimas juntas. A gente aprende que é sempre preciso deixar um espaço para a surpresa. E assim a costura vai misturando, ligando e transformando retalhos em roupas, almofadas, bolsas e o que mais a imaginação pedir. O Costura e Vinil existe não só para ensinar você a usar essa linha mas também para ser essa linha. Unir a costura à música, a modelagem a histórias de vida, o acabamento à arte. E assim ir misturando, ligando e transformando uma aula em risadas, conversas e descobertas”.

“Esse lindo texto está no site do Costuras e Vinil. Ele é uma declaração de amor à costura e às pessoas e relendo ele agora faz sentir um orgulho enorme de tudo que foi feito. Quantas histórias e quantas descobertas foram vividas aqui. Amizades foram feitas, encontros de amor e generosidade foram vividos. Tenho certeza que cada pessoa que entrou aqui, saiu um pouco diferente. Diferente na forma de pensar sobre algo, diferente na forma de se relacionar com alguém e, principalmente, diferente na forma de se relacionar consigo mesmo. Todas essas histórias, todos esses momentos e todos esses aprendizados mexeram também com a gente. Entramos no Costuras e Vinil de um jeito e estamos saindo diferentes. O Costuras e Vinil cumpriu o seu papel nas nossas vidas e agora é hora de seguirmos em frente e levarmos conosco tudo o que aprendemos. Cada um, da sua maneira, levará consigo as histórias e os momentos vividos aqui. É hora de fechar um ciclo…e foi lindo…

Muito obrigada por tudo e por terem sido instrumento para o nosso crescimento.

Equipe Costuras e Vinil “

Rosinha, eu e tantos que passaram horas deliciosas com você e sua equipe é que agradecemos. Obrigada. Volta logo. Estamos esperando as próximas aventuras.

E a aventura do blog Consumo Consciente com as costuras está apenas começando. Se você conhece e indica uma costureira, me conta. Estou organizando uma lista dessas profissionais e preciso muito de ajuda. Topa?

Espia aqui a minha produção:

 

 

 

 

 

 

 

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