Meliponicultura: guardiã da doçura nativa

As abelhas estão no time dos insetos com alto valor econômico para o homem. Elas produzem mel, cera, própolis, geleia real, além de serem as principais polinizadoras de frutas, vegetais e sementes. Estima-se que 86 das principais culturas em todo o planeta dependem das abelhas para serem polinizadas.

Há dois grupos de abelhas: as com ferrão, às quais se dedicam os apicultores, e as sem ferrão, foco de interesse dos meliponicultores. Nesse texto, vou tratar do segundo grupo: as abelhas nativas sem ferrão.

Antes da chegada da abelha Apis mellifera (popularmente conhecida como europeia, italiana ou africana) no continente americano, no século 18, ou da exploração da cana-de-açúcar para fabricação de açúcar, o mel das abelhas nativas era o principal adoçante natural e uma fonte de energia indispensável em longas caçadas e caminhadas que os povos nativos realizavam na busca por alimento.

Muito do conhecimento tradicional acumulado pela população nativa foi gradativamente assimilado. A domesticação das abelhas sem ferrão virou uma tradição popular largamente difundida especialmente nas regiões norte e nordeste do Brasil. A herança indígena presente na atual lida com as abelhas está nos nomes populares de muitas espécies, como Jataí, Uruçu, Tiúba, Mombuca, Irapuá, Tataíra, Jandaíra, Guarupu, Manduri e tantas outras. A diversidade de saberes e práticas aplicadas na meliponicultura atual é diretamente proporcional à diversidade de abelhas, culturas e ambientes onde a atividade se manifesta.

Mercado em expansão

Os meles das abelhas sem ferrão destacam muito a espécie de abelha que o produziu – só no Brasil são mais de 300 espécies – e as características do local, como a diversidade de plantas, clima, tipo de solo.

“Algo muito parecido com os vinhos, de forma que se usa o conceito de terroir também para o mel de abelhas sem ferrão”, ensina Celso Barbiéri, que é diretor técnico na ong SOS Abelhas sem Ferrão. Ele é bacharel em gestão ambiental e mestrando em sustentabilidade pela Universidade de São Paulo.

O mercado de meliponicultura está em franca expansão em função de vários fatores. Como o aumento do número de criadores em regiões onde a atividade era pouco praticada, como nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, já que é tradicional e muito difundida nas regiões Norte, Nordeste e Sul. Há também campanhas de conscientização sobre a importância das abelhas sem ferrão como polinizadoras e um trabalho de diversos grupos em divulgar os sabores nacionais.

O outro fator para a expansão desse mercado é a regulamentação regional para o mel de abelhas sem ferrão. Alguns estados como a Bahia e São Paulo já possuem regulamentação para a venda desses meles.

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“Nos estados onde não há regulamentação para o mel de abelha sem ferrão, esse deve seguir o padrão estabelecido para abelhas africanizadas, o que dificulta muito a produção e comercialização, uma vez que os meliponicultores em geral são pequenos produtores”.
Celso Barbiéri, diretor técnico da ong SOS Abelhas sem Ferrão

Alguns estados da região Norte alcançam uma produção razoável de mel de abelhas nativas e conseguem gerar renda para comunidades ribeirinhas que contam com assistência técnica para produção com qualidade e segurança alimentar.

Meliponicultura no Distrito Federal

Aqui no Distrito Federal, os meliponicultores lutam para fomentar a cadeia produtiva do mel de abelhas nativas através de um projeto ainda em fase inicial. Segundo o meliponicultor do Distrito Federal Helton Barbosa, a proposta tem o objetivo de mobilizar criadores para padronizar a produção e o manejo, buscar o apoio técnico de empresas públicas de extensão, instituições de pesquisa e fomento. “Enquanto isso, a venda do pouco mel que é produzido atualmente é feita de boca a boca, entre amigos, conhecidos e familiares”, descreve.

Barbosa comenta que o mercado de mel de abelhas nativas sem ferrão ainda não apresenta dados consistentes.

13406785_1235618366449613_6416909286561560427_n “Falta reconhecimento do produto como mel pelas autoridades competentes, pois as características físico-químicas apresentam muitas diferenças em relação ao mel de abelhas do gênero Apis. Por isso, o mel de abelhas sem ferrão ainda não é considerado mel, e além disso a produção ainda é insignificante diante da crescente demanda”.
Helton Barbosa, meliponicultor

Apesar da baixa produtividade de mel das abelhas nativas sem ferrão quando comparada (por enxame) às abelhas africanizadas, esse produto tem alto valor agregado e grande variedade de sabores. “Atualmente, em razão da busca por produtos naturais e valorização de produtos com identidade local, o mel de abelhas sem ferrão, como por exemplo de Jataí, tem alcançado o preço médio de R$200/kg”, conta Barbosa.

Uma colmeia para chamar de sua

Além do fator econômico, a criação de abelha ajuda a repensar os modelos de produção agrícola, com a adoção de práticas de conservação da água e do solo e manejo integrado de pragas e na redução do emprego de defensivos químicos.

Outro atrativo para enveredar pela meliponicultura é a possibilidade de criar abelhas sem ferrão nas cidades. Dá para ter uma colmeia para chamar de sua até dentro de apartamento. Se tiver interesse em iniciar a criação, pode entrar em contato com o meliponicultor Helton Barbosa por mensagem para o telefone +55 61 9318-3311.

Saiba mais

SOS Abelhas sem Ferrão (ong)

SOS Abelhas sem Ferrão (grupo de discussão)

Meliponicultura – Abelhas sem Ferrão (grupo de discussão)

Abelhas do Cerrado (canal de vídeos)

Instituto Sociedade, População e Natureza – ISPN (cartilha para meliponicultura)

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