Massimiliano Lombardo: a moda e os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável

A Semana Fashion Revolution – Brasília promoveu o Seminário Perspectivas para a Moda Consciente no Brasil, realizado no Auditório Nereu Ramos, na Câmara dos Deputados, no dia 24 de abril de 2018, Dia D da Revolução da Moda. O evento teve o apoio da Segunda Secretaria da Mesa Diretora da Câmara dos Deputados.

O seminário reuniu especialistas de várias áreas para falar sobre a cadeia produtiva da moda. Um dos painelistas foi Massimiliano Lombardo, especialista em meio ambiente e desenvolvimento sustentável. Atua como oficial do programa de meio ambiente da UNESCO no Brasil desde junho de 2016, com foco nas áreas de conservação e uso sustentável de recursos hídricos e da biodiversidade e implementação da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável.

Ele apresentou o conceito de desenvolvimento sustentável, que procura satisfazer as necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade das futuras gerações de satisfazerem as suas próprias necessidades. Demanda um esforço conjunto para a construção de um futuro inclusivo, resiliente e sustentável para todas as pessoas e todo o planeta. Para ser alcançado, é crucial harmonizar crescimento econômico, inclusão social e proteção ao meio ambiente. Esses elementos são interligados e fundamentais para o bem-estar dos indivíduos e das sociedades.

Foto: Will Shutter / Acervo / Câmara dos Deputados

“Erradicar a pobreza em todas as suas formas e dimensões é um requisito indispensável para o desenvolvimento sustentável. Para esse fim, deve haver a promoção de um crescimento econômico sustentável, inclusivo e equitativo, criando melhores oportunidades para todos, reduzindo as desigualdades, elevando padrões básicos de vida, estimulando a inclusão e o desenvolvimento social justo, e promovendo o gerenciamento integrado e sustentável dos recursos naturais e dos ecossistemas.”
Massimiliano Lombardo, Unesco

Linha do tempo Desenvolvimento Sustentável

1992 – Agenda 21
Plano de ação formulado internacionalmente para ser adotado em escala global, nacional e localmente por organizações do sistema das Nações Unidas, pelos governos e pela sociedade civil, em todas as áreas em que a ação humana impacta o meio ambiente. Lançada durante a Rio 92, realizada entre 3 e 14 de junho de 2012 no Rio de Janeiro (RJ).

2000 – 2015 – Objetivos de Desenvolvimento do Milênio
Os ODM surgiram da Declaração do Milênio das Nações Unidas, adotada pelos 191 estados membros no dia 8 de setembro de 2000. Foi alvo de críticas da sociedade civil, que desaprovou  o processo vertical para a elaboração dos ODM, sem debates ou discussões com a sociedade civil.

 

2012 – Rio + 20
A Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável foi realizada no Rio de Janeiro (RJ) de 13 a 22 de junho de 2012. Discutiu a renovação do compromisso político com o desenvolvimento sustentável. É considerado o maior evento já realizado pelas Nações Unidas e contou com a participação de chefes de Estado de 193 nações, que propuseram mudanças, sobretudo, no modo como estão sendo usados os recursos naturais do planeta. Além de questões ambientais, foram discutidos aspectos relacionados a questões sociais como a falta de moradia.2015 – Agenda 2030
Plano de ação com 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e 169 metas, voltadas para as pessoas, o planeta e a prosperidade de ambos. Ela busca fortalecer a paz universal com mais liberdade, e reconhece que a erradicação da pobreza em todas as suas formas e dimensões é o maior desafio global ao desenvolvimento sustentável.

ODS e a moda

A Agenda 2030 e os 17 ODS representam um marco importante na busca das nações pelo desenvolvimento sustentável. Foi esse o tema principal da apresentação do representante da Unesco, que fez uma associação com o uso da água pela cadeia produtiva da moda a partir dos ODS. Essa agenda não traz soluções para os problemas do mundo. Ela serve de um manual de instruções construído por várias mentes e mãos, com participação de organismos internacionais, governos e sociedade civil.

Lombardo explicou em detalhes o ODS 12 – Assegurar padrões de produção e de consumo sustentáveis (veja a lista completa abaixo neste texto). Confira as metas desse ODS que têm relação com o uso da água pela moda:

  • Até 2030, alcançar a gestão sustentável e o uso eficiente dos recursos naturais
  • Até 2020, alcançar o manejo ambientalmente saudável dos produtos químicos e todos os resíduos, ao longo de todo o ciclo de vida destes, de acordo com os marcos internacionais acordados, e reduzir significativamente a liberação destes para o ar, água e solo, para minimizar seus impactos negativos sobre a saúde humana e o meio ambiente
  • Até 2030, reduzir substancialmente a geração de resíduos por meio da prevenção, redução, reciclagem e reuso
  • Incentivar as empresas, especialmente as empresas grandes e transnacionais, a adotar práticas sustentáveis e a integrar informações de sustentabilidade em seu ciclo de relatórios
  • Até 2030, garantir que as pessoas, em todos os lugares, tenham informação relevante e conscientização para o desenvolvimento sustentável e estilos de vida em harmonia com a natureza

Impacto da indústria da moda no meio ambiente do Brasil

  • Resíduos têxteis gerados no Brasil: cerca de 175 mil toneladas/ano
    Fonte: Associação Brasileira da Indústria Textil – ABIT)
  • Apenas 36 mil toneladas são reaproveitadas na produção de barbantes, mantas, novas peças de roupas e fios. O resto é descartado nos lixões, rios, mares e lagos, muitas vezes sem tratamento algum.

Impactos ambientais embutidos na produção e no consumo

  • Ao se comprar uma camiseta de algodão, tipo t-shirt, por exemplo, contribuímos com o consumo de 1,7Kg de combustível fóssil e 2.700 litros de água, gerando 450g de resíduos sólidos e emitindo 4Kg de CO2 na atmosfera. Esses gastos multiplicam-se quando se leva em consideração a energia necessária para se lavar e passar esta camiseta durante sua vida útil.

Fonte: Fonte – Farias, Mariana. (2016). Consumo consciente de moda e o metabolismo futuro do guarda-roupa: uma abordagem quantitativa com mulheres residentes do interior de São Paulo.

Produção e Consumo de Água

  • 93 bilhões de m3 de água usados anualmente na produção de têxteis (fonte: Relatório da Fundação Ellen MacArthur, novembro de 2017). Isso equivale a cerca de 4% da captação mundial anual de água doce – sendo que a agricultura é responsável por cerca de 70% de toda captação, o que inclui água para o cultivo de algodão.
  • São necessários de 7 mil a 29 mil litros de água, dependendo do local de plantio, para produzir 1 kg de fibra de algodão.
  • A lavagem de roupas com máquinas nas residências e lavanderias consome, por ano, em todo o mundo, cerca de 20 bilhões de m3 de água.
  • A indústria da moda está em quarto lugar no ranking das indústrias mais poluidoras no que se refere a recursos hídricos – polui rios e mares, principalmente. Cerca de 20% dessa poluição é causada pelos processos de tingimento e tratamento de fibras têxteis (especialmente de algodão) para a produção de roupas. Cerca de meio milhão de toneladas de microfibras de plástico são derramadas nos oceanos, anualmente, durante a lavagem de têxteis a base de plástico, como poliéster, nylon ou acrílico

Lombardo apresentou alternativas para que cada pessoa faça a própria parte para uma moda mais responsável e sustentável. Ele listou, por exemplo, medidas “de cima para baixo” (top down), iniciativas dos governos, do setor produtivo e empresarial, como marco legal e regulatório, etiquetas, rótulos e selos; pactos empresariais; cooperativas e consórcios agrícolas etc.

Há ainda as medidas “de baixo para cima” (bottom up), que são atitudes de consumidores e organizações da sociedade civil, para influenciar positivamente os governos, o setor produtivo e empresarial e o Mercado (local, nacional e global). Por exemplo, mudanças de hábitos; movimentos como o Fashion Revolution; divulgação e uso de calculadoras de pegada ambiental e/ou hídrica (Ecoera); cadastros de empresas (positivos e negativos) e de boas práticas; campanhas de sensibilização etc.

17 ODS

Objetivo 1 – Acabar com a pobreza em todas as suas formas, em todos os lugares
Objetivo 2 – Acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar e melhoria da nutrição e promover a agricultura sustentável
Objetivo 3 – Assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todos, em todas as idades
Objetivo 4 – Assegurar a educação inclusiva e equitativa e de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos
Objetivo 5 – Alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas
Objetivo 6 – Assegurar a disponibilidade e gestão sustentável da água e saneamento para todos
Objetivo 7 – Assegurar o acesso confiável, sustentável, moderno e a preço acessível à energia para todos
Objetivo 8 – Promover o crescimento econômico sustentado, inclusivo e sustentável, emprego pleno e produtivo e trabalho decente para todos
Objetivo 9 – Construir infraestruturas resilientes, promover a industrialização inclusiva e sustentável e fomentar a inovação
Objetivo 10 – Reduzir a desigualdade dentro dos países e entre eles
Objetivo 11 – Tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis
Objetivo 12 – Assegurar padrões de produção e de consumo sustentáveis
Objetivo 13 – Tomar medidas urgentes para combater a mudança do clima e seus impactos
Objetivo 14 – Conservação e uso sustentável dos oceanos, dos mares e dos recursos marinhos para o desenvolvimento sustentável
Objetivo 15 – Proteger, recuperar e promover o uso sustentável dos ecossistemas terrestres, gerir de forma sustentável as florestas, combater a desertificação, deter e reverter a degradação da terra e deter a perda de biodiversidade
Objetivo 16 – Promover sociedades pacíficas e inclusivas para o desenvolvimento sustentável, proporcionar o acesso à justiça para todos e construir instituições eficazes, responsáveis e inclusivas em todos os níveis
Objetivo 17 – Fortalecer os meios de implementação e revitalizar a parceria global para o desenvolvimento sustentável
Saiba mais sobre ODS

 

Confira a apresentação de Massimiliano Lombardo no Seminário Perspectivas para a Moda Consciente no Brasil 

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