Armária: moda e identidade

A Semana Fashion Revolution – Brasília promoveu o Seminário Perspectivas para a Moda Consciente no Brasil, realizado no Auditório Nereu Ramos, na Câmara dos Deputados, no dia 24 de abril de 2018, Dia D da Revolução da Moda. O evento teve o apoio da Segunda Secretaria da Mesa Diretora da Câmara dos Deputados.

O seminário reuniu especialistas de várias áreas para falar sobre a cadeia produtiva da moda e também  compartilhou experiências inspiradoras da moda consciente. A Armária é uma loja de roupas agênero e sustentáveis. A curadoria das marcas expostas considera toda a cadeia produtiva, da responsabilidade ambiental e social a condições de trabalho.

Dayanne Holanda e Gioconda Bretas participaram do evento. O terceiro sócio, Anderson Falcão, ficou cuidando da loja. O trio peneirou dezenas de fornecedores para chegar a sete marcas selecionadas.

Dayanne é jornalista, piauiense, estrategista de comunicação corporativa com experiência em gerenciamento de equipes multimídia. Acredita que é urgente refundar os padrões de consumo relacionados à moda.

Gioconda é jornalista, mineira, produtora de cinema, atriz, especialista em planejamento estratégico, dirigiu área de marketing e comunicação de grandes instituições públicas. Acredita que a moda pode ser uma poderosa forma de expressão para ideias e causas, como a da sustentabilidade, da diversidade e do comércio justo.

O trio de jornalistas ficou desempregado ao mesmo momento,  compartilhou a necessidade de se reinventar e teve como ponto de partida interesses comuns: sustentabilidade, gênero e moda. A primeira experiência foi com uma franquia que durou entre quatro e cinco meses e não deu certo. Eles sentiram o baque e começaram tudo de novo. Recompor e resistir.

“Não voltamos para estaca zero. Aprendemos muito com a possibilidade da franquia. Partimos do zero do ponto de vista da modelagem do negócio. Sabíamos que queríamos trabalhar com algo ligado a um novo movimento de moda sem gênero. Fomos pesquisar.”
Dayanne Holanda

Os sócios engataram no modo repórter e foram em busca de informações. A partir da compreensão da moda como manifestação da cultura que reflete um diálogo entre o indivíduo e os padrões estabelecidos, conheceram novos movimentos em contraponto à moda tradicional. Estudaram conceitos em disputa da moda mundial e nacional: Slow Fashion, Agênero, Ativismo.

Dayanne explicou que o Slow Fashion surgiu em 2004, e foi um conceito criado por Angela Murrills (Londres). Foi inspirado no Slow Food, que se originou na Itália nos anos 1990. O Slow Fashion adaptou alguns pontos para o âmbito da moda. É um contra ponto ao Fast Fashion, sistema de moda atual que prioriza produção em massa.

Para os sócios da Armária, moda é escolha e não um mandato. O Slow Fashion é uma alternativa que promove maior liberdade na escolha dos produtos, com atuação colaborativa/cooperativa de trabalho. Uma forma de gerar um comércio mais justo. Promove a criação socialmente responsável e distribuição econômica. Valoriza os recursos locais. Elimina hierarquias entre estilistas, produtores e consumidores. Evita intermediários na cadeia de distribuição. Possibilita a melhor distribuição econômica entre os agentes da produção.

Sobre os conceitos agênero, genderless ou sem Gênero, Dayanne lembrou que permeiam a moda desde os anos 1920 com Coco Chanel, Marlene Dietrich e Katharine Hepburn com a busca de novas formas de expressão identitárias. Nos anos 2000, com a revolução de gênero, foi potencializada a visibilidade a identidades não binárias (feminino/masculino). Há registro também da perspectiva agênero na cultura. Atualmente, um dos lemas das correntes progressistas é “roupa não tem gênero”.

Com relação ao ativismo na moda, Dayanne comentou que decorre da liberdade de expressão cultural e política. Os movimentos ativistas, pulsantes na segunda metade do século passado, influenciaram os mais diversos tipos de expressão. Como o movimento hippie, que libertou os guarda-roupas dos padrões rígidos até então vigentes. Veio ainda a onda de moda circular, com comércio de roupas usadas e brechós. A entrada de mulheres no mercado de trabalho e o reconhecimento das causas feministas. A mini-saia.

Hoje, destacou Dayanne, o ativismo na moda está no próprio movimento Fashion Revolution, que contesta os modos de produção da indústria fast fashion. Há uma revolução de gênero em curso, com a adesão a movimentos vinculados aos direitos humanos e causas locais, regionais e mundiais.

Gioconda Bretas relembrou a minuciosa curadoria realizada pela Armária. Esse processo considerou tendências mundiais e nacionais. O trio assistiu a filmes, palestras, leu estudos técnicos e acadêmicos até fazer a primeira relação com 70 possíveis fornecedores.

Entre as variáveis analisadas nesse garimpo estiveram preço, tipo de produto, temática, materiais, cores, processos de produção, variedade, capacidade de entrega, publicidade, tipo de venda, história de cada um, participação em eventos regionais de moda como Minas Trend e Casa de Criadores (SP), posicionamento em redes sociais e internacionalização. Gioconda comentou que muita gente quer ser, muita gente quer parecer ser, mas nem todos conseguem. Passaram pela peneira da Armária sete marcas que hoje estão no estoque da loja.

Foto: Mariana Costa Amorim

“A proposta da loja Armária é conectar Brasília com consumo consciente, respeito a todos os tipos de corpos, liberdade de expressão, consciência social e ambiental, sustentabilidade.”
Gioconda Bretas

Coletivo de Dois – São Paulo (SP) – Os estilistas Hugo Mor e Daniel Barranco utilizam sobras de tecidos para construir peças autorais e cheias de personalidade. Tudo é pensado no cenário sustentável e seguindo os valores do slow fashion. A dupla é responsável por todo o processo de produção e logística, reaproveitam os tecidos até o limite e o papel kraft das modelagens viram sacolas da marca. A criação é completamente livre, são produzidas peças únicas.

LED – Belo Horizonte (MG) – Surgiu do desejo do designer Célio Dias de tirar do papel as ideias de moda que queria ver nas ruas: um estilo cosmopolita, irreverente, elegante e universal. Carrega em seu DNA total compromisso com as liberdades de escolha, valor embutido em todas as peças de design sem gênero definido. A estamparia é autoral, impressa em tecidos nobres, como o linho, ou práticos, como a malha. Uma marca criativa, jovem e despojada com postura elegante, sem abrir mão da casualidade, e ideias e conceitos plurais. Já foi vencedora do Minas Trend na categoria revelação e, em 2017, desfilou no São Paulo Fashion Week.

FCKT – São Paulo (SP) – Marca brasileira de moda sem gênero criada pelas mãos do estilista e vitrinista Everton Moreira, responsável pelo processo de criação e por boa parte da produção. Tem uma proposta interessante e atual de criar roupas que se conectam e expressam os valores das novas gerações, livre de estereótipos e limitações. A marca é pensada para um público exigente, viajado, culturalmente antenado, que redescobriu o poder do design e que se comunica e troca experiências virtualmente, numa velocidade acelerada e crescente. Tem um estilo prático e urbano, garantindo conforto e estética.

OCKSA – Porto Alegre (RS) e São Paulo (SP) – Os estilistas Igor Bastos e Deisi Witz mostram que estão antenados com o que de mais novo acontece na moda ao criarem roupas que não são feitas para homens ou para mulheres. Agênero e atemporal, de corte quase contestador, também se ensaia na tendência do slow fashion: em vez de quatro coleções por ano, elegem um tema anual que contará com peças para dias quentes e outras para dias frios, mas todas elas se combinando, o que aumenta as possibilidades de uso para o consumidor.  Criada em 2013, já se apresentou em semanas de moda de Berlim e Vancouver, e foi semifinalista do concurso MUUSE x “Vogue” Itália. Apresenta suas coleções na Casa de Criadores, em São Paulo.

Molett – Belo Horizonte (MG) – Conforto é a palavra chave da Molett. Bárbara Monteiro, a criadora da marca, resolveu apostar nos recortes, minimalismo e na questão do agênero. Molett defende que a moda não precisa ser descartável. Por isso, produz peças estilosas, mas com alma; simples, mas imprevisíveis. A marca já foi premiada pelo Minas Trend e, em 2017, desfila no evento de moda mais importante de Minas Gerais.

J541A – Santa Catarina (SC) – Conduzida pelo estilista catarinense Jaison Manuel Bogo Alves, a J541a produz peças que não agridem o meio-ambiente, elaboradas com sobras de material cuidadosamente selecionados, com toque e maciez. Produz poucas peças, pintadas a mão, tingidas, customizadas tornando-as únicas, exclusivas. Todas as peças são produzidas no Brasil por trabalhadores submetidos a condições dignas de trabalho.

Carlos Penna – Belo Horizonte (MG) – Desde seu início, a Carlos Penna vem buscando novos caminhos para produção de acessórios. Marcada pela singularidade e pelo inusitado as peças trazem consigo uma história que ultrapassa os conceitos comuns do design. Baseando-se no princípio de que a peça não precisa ser necessariamente uma joia, a marca está sempre brincando com as possibilidades de formas, materiais, contextos e usos. As peças não se completam apenas no seu design, são uma correlação entre o designer, objeto e usuário, que é parte fundamental no processo de significação da peça. Carlos Penna se envereda no universo de possibilidades, resignificando materiais, ampliando o horizonte de histórias e criando uma relação única com o usuário.

Confira a apresentação da Armária no Seminário Perspectivas para a Moda Consciente no Brasil. 

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