Iara Vidal: Índice de Transparência da Moda do Fashion Revolution

A Semana Fashion Revolution – Brasília promoveu o Seminário Perspectivas para a Moda Consciente no Brasil, realizado no Auditório Nereu Ramos, na Câmara dos Deputados, no dia 24 de abril de 2018, Dia D da Revolução da Moda. O evento teve o apoio da Segunda Secretaria da Mesa Diretora da Câmara dos Deputados.

O seminário reuniu especialistas de várias áreas para falar sobre a cadeia produtiva da moda. Eu fui uma das painelistas e, como representante da Fashion Revolution Brasil em Brasília, falei sobre o Índice de Transparência na Moda. Eu exibi o vídeo com a coordenadora de educação do movimento no Brasil, Eloísa Artuso.

Falei sobre o movimento Fashion Revolution, um movimento mundial, presente em 92 países criado para ampliar a conscientização sobre os impactos ambientais e sociais da cadeia da moda em todas as fases da produção até o consumo. A iniciativa surgiu após o desabamento do edifício Rana Plaza, no dia 24 de abril de 2013, deixando 1.134 mortos e 2.500 feridos. O prédio abrigava confecções de roupas em Daca, Bangladesh.

O Fashion Revolution surgiu para mostrar ao mundo que a mudança é possível, com a criação de um futuro mais sustentável; exigir transparência na indústria e nos negócios; e promover ações mobilizadoras para convidar a uma poderosa reflexão: Quem fez minhas roupas?“.

A campanha do Fashion Revolution em 2018 teve como tema “Cinco Anos após Rana Plaza”. Apresentei o que mudou desde o episódio. Mais de 1.300 fábricas foram inspecionadas em Bangladesh desde a tragédia do Rana Plaza. O governo de Bangladesh aumentou em 77% o salário mínimo da área – agora são $68 por mês. Mais de 70 marcas, que representam 15% da produção têxtil global, se comprometeram a participar da campanha Detox do Greenpeace para eliminar os produtos químicos prejudiciais das cadeias de produção da moda.

Também levei os dados do Fashion Revolution no Brasil. Em 2017, fomos o país que mais usou a hashtag #fashionrevolution. Foram 19% das menções mundiais: 4.884; 225 eventos em 37 cidades; 150 atividades em 50 faculdades e 31 estudantes embaixadores.

O tema central da minha apresentação foi o Índice de Transparência da Moda. Criado pelo Fashion Revolution, analisa as 100 maiores marcas e revendedoras globais de moda de acordo com o quanto compartilham sobre políticas, práticas e impactos sociais e ambientais. O objetivo é inspirar você a pensar de forma diferente sobre as roupas que compra e veste. Pesquisar sobre marcas, como as peças são feitas, em quais condições e que custo. Descobrir sobre os processos de produção e as pessoas por trás das roupas.

Foto: Mariana Costa Amorim

“Não sabemos onde e como são produzidas nossas roupas. Estamos à deriva do direito de saber se nossas roupas estão livres de exploração, violação de direitos humanos e destruição ambiental. Sem informação, não há como cobrar nem responsabilizar marcas e governantes. O primeiro passo para uma moda consciente é a transparência.”
Iara Vidal, representante do Movimento Fashion Revolution em Brasília

A edição mais recente do Índice de Transparência da Moda é de outubro de 2017. Revela que não sabemos o suficiente sobre o impacto que nossas roupas têm sobre as pessoas e sobre o planeta. Até as marcas que conseguiram a melhor pontuação ainda têm um longo caminho em direção à transparência de fornecedores, gerenciamento de cadeia de suprimentos e práticas de negócios.

Para se ter uma ideia do quanto precisamos caminhar em direção à transparência, a pontuação média de todas as marcas no Índice de Transparência da Moda 2017 foi 49 de 250, nem 20% de todos os pontos possíveis. Adidas e a Reebok alcançaram as maiores pontuações, com 121,5 de 250 (49% do total de pontos possíveis). Em seguida, Marks & Spencer com 120 pontos e a H&M, com 119,5 pontos (48% do total de pontos possíveis).

Para mudar esse cenário, é preciso reconhecer que é um processo. Será uma longa jornada para um modelo de indústria diferente que exige muitas etapas para mudar a maré do fast fashion ou de outros modelos de negócios que não são sustentáveis. A transparência é o primeiro passo e fará com que consumidores, marcas e revendedores, governos e cidadãos da cadeia de suprimentos tomem ações.

Além disso, são necessárias mais informações. Muitas pessoas continuam comprando de grandes marcas corporativas, mas querem mais ferramentas para entender como os produtos são feitos, onde, por quem e sob quais condições.

A inclusão é a chave para a mudança na moda. Milhões de trabalhadores são empregados nas cadeias de suprimento dessas grandes marcas, e é preciso ter cautela para garantir que o futuro da indústria da moda seja capaz de oferecer um trabalho decente, condições de vida sustentáveis, esperança e integridade a todos que trabalham nela, desde a fazenda até a revenda.

Em 2018 será elaborada a primeira edição brasileira do Índice de Transparência da Moda, para analisar em que medida 20 grandes marcas divulgam informações sobre a cadeia produtiva.

Quem fez minhas roupas?

Durante a Semana Fashion Revolution – Brasília, de 23 a 29 de abril de 2018, eu celebrei as pessoas que fizeram as minhas roupas. A cada dia do evento eu fotografei o meu visual e postei nas minhas redes sociais.

Visual do Seminário Perspectivas para a Moda Consciente no Brasil Foto: Camila da Mata

No Dia do Seminário Perspectivas para a Moda Consciente no Brasil, o dia D da Revolução da Moda, dia 24 de abril, eu usei um Desenho de Vestir de Dani Acioli. A minha kafta foi produzida com tecido de reuso. A artista plástica pernambucana produziu estampas digitais em chifon para cenografia da exposição Tramas: Diálogos com Zuzu, de 2016, que passou pelo Rio de Janeiro e por Recife para celebrar a obra da estilista Zuzu Angel. Os 32 metros de tecido viraram a minicoleção Zuzu – um desenho de vestir.

Como colar, usei uma peça da Tengo Un Corazón, que produz corações anatômicos batendo fora do peito. Esta é a proposta das peças desenvolvidas pela designer Denize Barros e seu parceiro, o artista plástico Marcio Azevedo, para o projeto Tengo Un Corazón. Juntos, criam, modelam, pintam e dão vida aos pingentes, todos únicos e feitos a mão. Para além das peças, os ensaios fotográficos produzidos pela marca, une artistas e fotógrafos em torno de imagens inspiradoras, repletas de amor e drama.

O brinco de borracha em forma de flor é da Soneto Jewelry, marca brasiliense que também produz com aço inox. Anel e pulseira produzidos pela Mina Nagô, marca de Brasília que faz acessórios afros. A bolsa é do Mestre Espedito Seleiro e foi feita em couro de bode pelo artesão de Nova Olinda (CE). Ele é filho do artesão que produzia os calçados de Lampião, Maria Bonita e seu bando. Nos pés, minha marca favorita de calçados, a mineira Virgínia Barros, que produz cada peça de forma artesanal e baseada no comércio justo.  

Confira a minha apresentação no Seminário Perspectivas para a Moda Consciente no Brasil.

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