Fernando Demarchi: moda circular

A Semana Fashion Revolution – Brasília promoveu o Seminário Mercado Local de Moda Consciente, realizado na sala 1 das Comissões da Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), no dia 25 de abril de 2018. O evento teve o apoio da Presidência da CLDF.

Foram apresentados painéis sobre moda circular (brechós, armário compartilhado e aluguel de roupas), mercado autoral (histórias de marcas, tingimento natural, manualidades e nova mentalidade para a moda consciente), negócios colaborativos (lojas colaborativas, suporte a marcas e coworking) e cenário local da moda do Distrito Federal.

Fernando Demarchi é designer e jornalista de moda, com formação em Negócios e Marketing de Moda e Consultoria de Imagem. Especialista em Imagem de Moda, Comunicação e Marketing e Semiótica Aplicada ao Design de Moda. Falou sobre iniciativas alinhadas à moda circular: brechós, armários compartilhados, aluguel e customização (upclycling).

Demarchi iniciou a apresentação com conceitos de estilo e personalidade, que representam a soma de experiências, desejos, inspirações e anseios do indivíduo. É um tipo de comunicação não verbal que traz como ferramenta principal a dicotomia entre traje e indumentária. O traje é de uso individual e a indumentária segue um código social que estabelece o que é aceitável. Juntos, formam o sistema do vestir-se.

O tema central da participação do designer foi a moda circular. Sobre aluguel de roupas, ele fez um resgate histórico dessa prática. Surgiu na era Moderna em um período marcado por um forte mercado de itens de segunda mão, que envolveu de homens a mulheres, de trapeiros pobres a ricos comerciantes.

A importância desses locais para aluguel de roupas era tanta que ocupavam as ruas centrais das cidades. Lá, os pobres podiam dispor de bens (geralmente roupas ou produtos agrícolas) e obter outros bens. As famílias nobres realizavam vendas para reduzirem débitos para custearem seus luxos. Esse mercado incluía, além da compra e da venda, o aluguel (prática muito comum entre os pobres), o leilão e mesmo o penhor.

Demarchi citou que a obra ‘O casaco de Marx: roupas, memória, dor’, de Peter Stallybrass (2012), revela uma curiosidade. O casaco de Karl Marx entrava e saía da loja de penhores constantemente. Ia para a loja quando seu dono precisava de dinheiro para cobrir necessidades e era recuperado por ocasião do inverno ou para que seu dono pudesse se vestir de forma respeitável para entrar na biblioteca do Museu Britânico.

Sobre armários compartilhados, Demarchi comentou que a prática surgiu por meio de coletivos e pessoas que acreditam na economia colaborativa e no consumo consciente. No entanto, ressaltou, não é de hoje que a ideia faz sucesso. Fora do Brasil, a marca holandesa Lena, The Fashion Library e a britânica Rentez-Vous já são superconhecidas no cenário fashion por propagar esta iniciativa.

“É óbvio que a ideia chega ao país como uma oportunidade de negócio para quem tem muitas roupas dentro do armário e quer lucrar de alguma forma com isso, mas possuir um guarda-roupa compartilhado significa ter comprometimento com os clientes e, sobretudo, com as roupas que serão emprestadas. Outro detalhe: é preciso ter um acervo em constante reformulação e que privilegie os mais diferentes tipos de corpos. A tendência do guarda-roupa compartilhado está ganhando o Brasil. Ideias que estão dando protagonismo à economia colaborativa e fazem a moda crescer.”
Fernando Demarchi

Sobre brechós e feira de trocas, Demarchi relembrou que a compra de roupas e produtos usados é uma prática bem antiga. No subúrbio de Paris, em Saint Quen, por volta de 1900, já existiam feiras de trocas. Devido às péssimas condições de higiene, esses locais foram apelidados de marché aux puces (mercado de pulgas).

Esses eventos, recordou, começaram no Brasil em 1899, com Belchior, um mascate que revendia no Rio de Janeiro (RJ). Em função do nome complicado, ficou conhecido como Brechó, daí a origem do termo. Até hoje muitas pessoas acham que brechós são locais com peças ruins, velhas e com más energias, já que algumas coisas são bem antigas, usadas e baratas. Ele questionou essa avaliação e elencou as vantagens de uma peça ser antiga, usada e barata.

Sobre a prática de customização, Demarchi explicou que durante o século 20, em contraponto a imposições de estilo de consumo que foram transformadas em massificação, a moda se reinventou a partir do conceito de customização. Que é a prática de personalizar peças, criar novas propostas e se diferenciar das outras pessoas.

Quanto ao upcycling, o painelista explicou que é um processo que dá novas formas de reuso para materiais que, a princípio, não teriam mais utilidade. A prática aproveita algo sem valor comercial que seria descartado e o transforma em algo diferente. Ele ressaltou que o upcycling não é o mesmo que reciclagem e que pode ser compreendido como uma evolução. O termo, ensinou, surgiu em 1990 e foi difundido a partir de 2002 a partir do conceito de reaproveitamento e de continuidade do ciclo de vida do produto. Uma prática não invalida a outra e ambos tem como objetivo tornar o planeta mais sustentável.

Confira a apresentação de Fernando Demarchi no Seminário Mercado Local da Moda Consciente..

 

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