Controle biológico: alternativa aos agrotóxicos

Controlar as pragas agrícolas e os insetos transmissores de doenças a partir do uso de seus inimigos naturais, que podem ser insetos, predadores, parasitas, fungos, vírus e bactérias. Essa é a premissa do controle biológico, um método de controle racional e sadio que não deixa resíduos nos alimentos e é inofensivo ao meio ambiente e à saúde da população. É possível adotá-los em lugar dos agrotóxicos?

A Embrapa criou o Portfólio Corporativo de Controle Biológico e investe em pesquisas de controle biológico de pragas desde os anos 1980. Esse esforço é uma resposta ao uso intensivo de agrotóxicos sintéticos na agricultura, que causa diversos problemas, como a contaminação dos alimentos, do solo, da água e dos animais; a intoxicação de agricultores; a resistência de pragas a princípios ativos; a intensificação do surgimento de doenças; o desequilíbrio biológico, alterando o ciclo de nutrientes e da matéria orgânica; a eliminação de organismos benéficos e a redução da biodiversidade.

Esses dados preocupam os diversos segmentos da sociedade e têm levado à uma demanda crescente por alternativas que atendam às restrições ambientais e às exigências dos consumidores. O controle biológico, inserido no manejo integrado de pragas, é uma das opções viáveis para atender aos anseios da sociedade na busca constante por soluções sustentáveis.

Em 2017, o Brasil contava com 143 produtos voltados para o controle biológico, o uso de insetos, micro-organismos e animais predadores para combater pragas agrícolas no lugar dos pesticidas químicos. Em 2010, eram apenas 19, o que configura um aumento de 652% em sete anos, segundo dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

O perfil da indústria de agentes de controle biológico inclui, em sua maioria, pequenas e médias empresas especializadas. As grandes empresas, tradicionalmente líderes no mercado de agrotóxicos sintéticos, estão adquirindo ou reativando divisões relacionadas ao desenvolvimento de biopesticidas, em função da perspectiva de negócios no mercado brasileiro.

Pacote do Veneno

Uma das pautas mais polêmicas do momento é a votação do Pacote do Veneno (PL 6299/2002) nos próximos dias. Se aprovada, a proposta reduzirá o tempo para o registro e a comercialização dos produtos junto aos órgãos de saúde e meio ambiente. Mudará o nome oficial de agrotóxico para produtos fitossanitários ou de controle ambiental. Descartará o princípio da precaução, abrindo a possibilidade de validar o uso de produtos proibidos em outros países por trazerem riscos à saúde, como a má-formação de fetos ou o aumento da probabilidade do aparecimento de cânceres.

O debate sobre o tema envolve questões fundamentais: soberania alimentar, justiça social e saúde para seres humanos e o meio ambiente. É preciso alimentar as pessoas, mas as atividades humanas estão mudando o ecossistema, o que ameaça a própria sobrevivência da espécie. Estamos acabando com a areia do mundo, os oceanos estão afogados em plástico e com muitas áreas mortas. Já eliminamos 83% dos mamíferos selvagens da Terra. Tem muito mais pegadas, infelizmente.

Será que sobra planeta para os humanos? O quanto os agrotóxicos são indispensáveis para garantir alimentos para uma população de 7 bilhões de pessoas? Há poucos dados sobre a produtividade da agricultura orgânica x convencional. Se você seguir o dinheiro dos estudos que indicam que a única alternativa para o desafio da humanidade está no uso de veneno, vai achar a indústria química como patrocinadora.

Por outro lado, os estudos que apontam a viabilidade da agricultura orgânica em larga escala são poucos e dispersos. Na página da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida está sendo construída uma base de conhecimento, com contribuições de universidades e centros públicos de pesquisa e valorizando os saberes populares.

Um dos estudos que apontam a agricultura orgânica como alternativa viável foi divulgado pela Agência Fapesp, ligada ao Fundo de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. Os especialistas concluíram que quando o mercado oferecer equipamentos específicos para a agricultura orgânica, a produtividade pode ser até maior do que na agricultura convencional.

Há experiências concretas e promissoras na produção de orgânicos em larga escala. Como a do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), que é o maior produtor de arroz orgânico da América Latina. A estimativa para a safra 2017-2018 é colher cerca de 24 mil toneladas. A produção, a industrialização e a comercialização do arroz são planejadas e executadas pelos próprios camponeses. O grão, que é certificado como orgânico, chega às feiras e ao mercado por meio da marca ‘Terra Livre’. A maior parte é comercializada via iniciativas institucionais, como o Programa Nacional da Alimentação Escolar (PNAE).

A agricultura sintrópica de Ernst Götsch é outra opção ao uso de veneno para produção de alimentos. O suíço radicado no Brasil estudou e trabalhou, como geneticista, com melhoramento vegetal no país de origem até a década de 1970. No anos 1980, mudou-se com a família para uma fazenda no sul da Bahia. Encontrou um grande pasto degradado e, sem adubos químicos nem orgânicos, sem irrigação, sem pesticidas nem herbicida, trabalhou com a vida e a vida transformou o lugar. A fertilidade do solo aumentou, nascentes secas ressurgiram, as chuvas ficaram mais frequentes. Hoje, são abertas clareiras para cultivar hortaliças, grãos e raízes. A fazenda Olhos D’Água produz uma grande variedade de frutas, madeiras nobres e um dos cacaus mais finos e valiosos do mundo.

O Brasil é o maior mercado de agrotóxicos do mundo, ultrapassando a marca de 1 milhão de toneladas por ano, o que equivale a um consumo médio de 5,2 kg de veneno agrícola por habitante. Outro dado alarmante é o abismo entre a legislação brasileira e a da União Europeia sobre o limite aceitável de resíduos na água e nos alimentos. Por aqui, permitimos o limite 5 mil vezes superior ao máximo que é permitido na água potável da Europa. No caso do feijão e da soja, o uso no cultivo de quantidade 400 e 200 vezes superior ao permitido na Europa.

A única forma de impedir a aprovação do Pacote do Veneno é fazer pressão popular. Uma das maneiras de participar é juntar esforços à sociedade civil organizada e aderir, por exemplo, à Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida. Ou participar da mobilização #ChegaDeAgrotóxicos, que também defende a aprovação, pelo Congresso Nacional, do Projeto de Lei 6670/2016 que institui a Política Nacional de Redução de Agrotóxicos (PNaRA).

 

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