O debate político em favor de uma indústria da moda justa e responsável

O sucesso deve ir além das vendas e lucros e valorizar o crescimento financeiro, o bem-estar humano e a sustentabilidade ambiental

O que moda tem a ver com política? Tudo. Só será possível melhorar a forma como as roupas são produzidas, compradas, cuidadas e descartadas se o poder público e os governos promoverem mudanças estruturais para uma indústria da moda responsável, transparente, justa e sustentável. Como alcançar esses objetivos diante da hecatombe obscurantista instalada no País?

Como atuar por uma indústria que promova trabalho digno e justo diante de uma agenda de retrocessos de direitos e garantias de trabalhadoras e trabalhadores, inclusive da cadeia produtiva da moda? Como enfrentar o trabalho análogo à escravidão com o fim do Ministério do Trabalho, ameaças à Justiça do Trabalho e a provável extinção ou esvaziamento da Comissão Nacional para Erradicação do Trabalho Escravo (Conatrae)?

Como garantir a representatividade na moda das populações negra, indígena, quilombola e LGBTQI+ em um cenário de heteronormatividade tóxica? Como promover a equidade de gênero em um contexto antifeminista e misógino, em que as mulheres são silenciadas nos espaços de poder?

Como promover a produção agroecológica de algodão frente à liberação acelerada de agrotóxicos ー muitos deles banidos em países desenvolvidos? Como falar em respeito ao meio ambiente ao assistir ao desmonte dos órgãos de proteção ambiental, negacionismo do aquecimento global e seus efeitos devastadores e até mesmo a proposta de extinção das reservas de proteção ambiental nas propriedades rurais?

Como fomentar pesquisa, ciência e tecnologia aplicadas à moda diante de um governo que repudia o debate democrático e visões de mundo diferentes e promove um corte catastrófico nas verbas de universidades públicas e a perseguição a cientistas e professores?

Debate

Todas essas questões políticas atingem em cheio a moda. Por isso, pelo segundo ano seguido, a Semana Fashion Revolution levou esse debate para o Congresso Nacional. O seminário Revolução da Moda ー Diálogos sobre iniciativas legislativas para a moda consciente, realizado no dia 26 de abril de 2019, promoveu três painéis de conversa: “Racismo na moda”, “Algodão orgânico e agricultura familiar”, e “Trabalho digno na moda”.

Para falar sobre “Racismo na Moda’, participaram a deputada federal Talíria Petrone (PSOL-RJ), apoiadora da realização do evento, a comunicadora Kelly Quirino, a professora de Moda do Instituto Federal de Brasília (IFB) Moema Carvalho e a produtora e designer de Moda Monique Corrêa.

O painel promoveu reflexões sobre a representatividade negra na moda sob o ponto de vista de mulheres negras. Um efeito prático desse diálogo foi que Talíria Petrone deixou seu mandato aberto para escutar profissionais da área da moda e pensar como, por exemplo, é possível discutir o orçamento público para garantir um percentual para a moda consciente.

Sobre “Algodão orgânico e agricultura familiar”, falaram a engenheira agrônoma e professora da Universidade de Brasília (UnB) Cristina Schetino, o oficial de projetos do Centro de Excelência contra a Fome do Programa Mundial de Alimentos (PMA) da Organização das Nações Unidas (ONU), Joélcio Carvalho, a engenheira agronômica Valdenira de Almeida, da empresa de calçados francesa Vert, e o engenheiro agrônomo e assessor para políticas públicas da Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais, Agricultores e Agricultoras Familiares (CONTAG), Ronaldo Ramos.

O debate abordou produtividade de cultura agroecológica, o viés da segurança alimentar no cultivo do algodão orgânico, os gargalos para o incremento da produção algodoeira agroecológica e a necessidade de políticas públicas voltadas para fomentar esse tipo de cultivo sem o uso de agrotóxicos.

O painel “Trabalho Digno na Moda” contou com a presença da deputada federal Érika Kokay (PT-DF), do auditor-fiscal do Trabalho Renato Bignami, como representante do Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais do Trabalho (SINAIT), e das procuradoras do Ministério Público do Trabalho (MPT) no Distrito Federal Carolina Mercante e Renata Coelho.

O diálogo traçou um panorama dos efeitos dos desmontes proporcionados nos órgãos responsáveis pelas garantias dos direitos e garantias de trabalhadoras e trabalhadores, das dificuldades orçamentárias desses entes e da urgência da sociedade civil organizada em atuar em defesa desses instrumentos.

Em São Paulo, o Fashion Revolution promoveu uma roda de conversa com a deputada federal Tábata Amaral (PDT-SP) sobre a relação da moda com a política com foco nas pautas da parlamentar, como educação, igualdade de gênero e renovação política.

No Reino Unido, berço do movimento Fashion Revolution, em 2011 foi criado um grupo parlamentar sobre moda ética na Câmara dos Lordes (House of Lords). O fórum reúne designers e políticos para abrir canais de comunicação em torno de questões para a sustentabilidade na indústria da moda. Os designers também participam do desenvolvimento, pelo governo, de mapas ambientais para influenciar políticas de apoio a novos modelos de negócio e mercado e incluir outros valores além de considerações econômicas. O GT serve ainda para ajudar a criar padrões universais para artigos têxteis e de vestuário que começam a conduzir toda a indústria, e os sistemas em que opera, rumo ao melhor equilíbrio da saúde econômica, social e ecológica.

Resposta na passarela

Na mesma semana da campanha global para mais sustentabilidade, transparência e justiça na moda, também foi realizada a edição número 47 da São Paulo Fashion Week (SPFWN47). Uma das coleções apresentadas foi a de Ronaldo Fraga, inspirada na obra “Guerra e Paz”, de Cândido Portinari. Os dois painéis foram encomendados pela ONU e contrapõem o massacre do povo e sua capacidade em expressar alegria. Em um exercício de ficção, Fraga questiona Portinari como seria tal obra diante da atual situação lamentável do País?

A resposta veio na passarela. A militarização da vida foi representada por capacetes com adornos sobre questões como uso de armas ー símbolo e gestual do atual governo –, genocídio da população negra, negação da escravidão e suas consequências contemporâneas, perseguição à população LGBTQI+, medidas que ampliam a exploração de florestas e roubam direitos das populações indígenas, opressão de trabalhadores e trabalhadoras e descaso com as ciências humanas.

Nas estampas, detalhes de “Guerra e Paz” e também balas, estilhaços, sangue. No chão da passarela, café, símbolo de riqueza, conforto e trabalho escravo nas fazendas brasileiras. As técnicas de patchwork ornaram com o pensamento da coleção de compreender a história como um ajuntamento de vozes, de trajetórias, de pessoas e seus percursos, produções e afetos.

O desfile do estilista mineiro fez ecoar um manifesto político contra os inúmeros retrocessos políticos, sociais e ambientais em curso. Como é marca em sua carreira, Fraga mostra que a passarela é também local de resistência política. Ao longo de sua carreira, ele contou várias histórias por meio da moda e, de forma lúdica, colorida e fluida, abordou assuntos conectados com o dia a dia das pessoas comuns.

Como no Verão 2001/2002, com a coleção “Quem Matou Zuzu Angel”, quando Fraga homenageou a primeira estilista a falar em identidade da moda brasileira e a usar a moda como bandeira política. No auge da ditadura militar, Zuzu denunciou ao mundo os horrores da tortura e morte do regime militar durante um desfile realizado na embaixada brasileira nos Estados Unidos. Ou no Verão 2008/2009, com a coleção “O Rio São”, inspirada no rio São Francisco com caboclos d’água, mulheres-peixe, marinheiros, barcos-gaiolas e mitos barranqueiros e as assombrações perpetuadas pelos carcarás do poder.

Em tempos de desmonte de direitos, a resposta da moda pode ser multiplicar atuações como as de Ronaldo Fraga e estimular o debate sobre as suas relações com a política. Afinal, não é mais possível viver em um mundo onde roupas destroem o meio ambiente, prejudicam ou exploram as pessoas e reforçam as desigualdades de gênero. Este não é um modelo de negócios sustentável. A indústria da moda deve medir o sucesso além das vendas e lucros e valorizar igualmente o crescimento financeiro, o bem-estar humano e a sustentabilidade ambiental. É urgente uma indústria de moda transparente e que se responsabilize pelas suas práticas e impactos sociais e ambientais.

A moda precisa ser resistência desses tempos obscuros e, para isso, precisa de aliados para conseguir decifrar o lema do Fashion Revolution: Quem Fez Minhas Roupas?

*Texto de Iara Vidal, representante da Fashion Revolution em Brasília, publicado no blog Fashion Revolution na CartaCapital. Leia o original aqui.

Um comentário

Deixe uma resposta