Moda, Política e a guayabera latina

OutFit Comuna (logo).pngAlém do vestir, uma peça de roupa também tem função política. É possível contar a história da civilização por meio da indumentária, com as relações de poder e status nas cores, tecidos e formas ao longo dos séculos. Moda e Política caminham juntas na construção da estética padrão de cada época. Um exemplo de outfit repleto de simbologia política é a guayabera, com forte conotação esquerdista e signo da integração da América Latina.

As raízes da camisa de botões de cima a baixo de algodão ou linho, com quatro bolsos, e bordados ou pregas na frente estão na Cuba do século XIX. A peça foi usada pelo presidente Lula em diversas oportunidades durante o seu governo. Ele estava presente e de guayabera branca durante a abertura da II Cúpula da América Latina e do Caribe, realizada em Cancún, no México, em fevereiro de 2010.

Quando Fidel Castro decidiu aparecer em público pela primeira vez em 35 anos sem sua habitual veste militar verde-oliva, em 1994, durante uma cúpula na Colômbia, o traje escolhido pelo líder cubano foi uma guayabera branca combinada com calças azuis. Durante um dos últimos encontros entre os dois líderes latino-americanos, ambos vestiam o traje típico. Outfit Comuna por excelência.  

 

O escritor Gabriel García Márquez vestiu uma guayabera para receber o Prêmio Nobel, em 1982. Durante suas longas temporadas em Cuba, Ernest Hemingway a vestia diariamente, como um uniforme.

 

Não precisa ser de esquerda para usar o icônico modelo. Em 2018, durante a assinatura de acordo entre o Mercosul e a Aliança do Pacífico, Michel Temer e outros líderes usaram a guayabera, que é considerada formal e comum em cúpulas em países muito quentes. O escritor ultraliberal Mario Vargas Llosa adotou a guayabera tanto em sua rotina de intelectual quanto nos tempos da campanha à Presidência do Peru, em 1990. Presidentes dos EUA já a usaram, como Ronald Reagan, republicano, e Jimmy Carter, democrata. 

 

 

A política na moda

Para além de trajes dos poderosos, a moda reflete o tempo presente. Em plena Quarta Revolução Industrial, a Era da Informação, há profundas transformações em curso, em especial no modo de produção e de comunicação. A moda capta essas mudanças e está sendo guiada para transformações com propósito e que contemplem os grandes temas da atualidade, como crise climática, sustentabilidade, equidade de gênero, representatividade, identidade, cultura e ancestralidade.

A cadeia de valor da moda tem um peso importantíssimo tanto na geração de emprego e renda, sobretudo para as mulheres que representam 80% da força produtiva global do setor, quanto em impactos socioambientais. A produção mundial de têxteis emite 1,2 bilhões de toneladas de gases de efeito estufa por ano, mais do que os voos internacionais e o transporte marítimo combinados. Estamos produzindo 53 milhões de toneladas de fibras para confeccionar roupas e têxteis anualmente, apenas para aterrar ou queimar 73% dessas fibras. De todos os agrotóxicos usados no planeta, 16% são para plantações de algodão.

O Brasil detém a maior cadeia integrada do ocidente, ou seja, o país atua em todas as etapas dessa indústria, desde a produção das fibras até os desfiles de moda, passando por todos os processos industriais como fiações, tecelagens, beneficiadoras, confecções e varejo.

A indústria brasileira de vestuário e têxtil tem produção média de confecção de 6,7 bilhões de peças, uma média de 1,8 milhão de toneladas ao ano. O setor gera 1,5 milhão de empregos diretos e 8 milhões de indiretos, dos quais 75% são de mão de obra feminina. Como o 2º maior empregador da indústria de transformação, perdendo apenas para alimentos e bebidas (juntos), detem 32 mil empresas formais no Brasil todo. Somos o 4º maior produtor de malhas do mundo, o segundo maior de produtor de jeans ( 5º em consumo),  5º maior produtor têxtil e o 4º em produção de peças do vestuário.

Para alcançar as mudanças urgentes e necessárias na cadeia produtiva da moda é preciso implementar políticas públicas que possam dar volume e escala para novas formas de produção e consumo. A transparência e a responsabilidade social e ambiental da indústria global da moda devem estar na agenda governamental de todos os países. Com os regulamentos e incentivos corretos em vigor e devidamente implementados, o governo pode incentivar uma “corrida pelo primeiro lugar”, na qual pessoas e empresas recebam apoio e incentivo para adotar mentalidades e práticas mais responsáveis e sustentáveis.

Roda de conversa

Na próxima quarta-feira, 24 de julho, será realizada a primeira Roda de Conversa Moda e Política, a partir das 19h30. A iniciativa é uma parceria do blog Consumo Consciente, Movimento Ecochic e loja Armária (107 Norte), onde será realizado o bate-papo. Participam da troca de ideias Domingos Leonelli (Instituto Pensar), Lídice da Mata (deputada federal PSB-BA), Mônica Horta (Movimento Ecochic Day), Gioconda Bretas (Armária) e eu. A mediação será feita pela jornalista Cynara Menezes, a Socialista Morena. Na pauta desse encontro, a economia criativa, na qual a moda está inserida, como estratégia de desenvolvimento e a aplicação da Política Nacional de Resíduos Sólidos na indústria de vestuário e têxtil. 

Cópia de Roda de conversaModaEPolítica

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