Upcycling ou greenwashing: resíduos têxteis no Brasil

3bd65afb37f6470f7329fba046ce1fca

A indústria têxtil brasileira é a terceira maior do mundo e produziu 170 mil toneladas de resíduos de tecidos, em 2014, por falta de reciclagem seletiva. Esse volume de retalhos poderia ser reciclado, gerar renda e diminuir gastos de US$ 5,8 milhões (equivalente a mais de R$ 23 milhões) na importação de resíduos equivalentes. Nos Estados Unidos, a nação que mais consome no mundo, os resíduos têxteis aumentaram em 811% entre 1960 e 2015, passaram de 1,76 milhão para 16 milhões de toneladas. 

Nesse cenário é motivo para celebrar iniciativas que reduzam esse impacto. Por exemplo, a Farm, empresa do grupo Soma, acaba de anunciar uma nova coleção Jeans Re-Farm, que, segundo as peças publicitárias, é 100% feito no Brasil, com algodão brasileiro e responsável e sem químicos nocivos. “O jeans é a peça que mais gasta água para ser produzidas e por isso decidimos repensar todo este processo para diminuir o impacto causado”. Uma bela prática, mas em qual escala? 

A Farm junto com a Fábula, Animale e FYI, empresas do grupo Soma, utilizam a mesma unidade de corte e geram mensalmente 64 toneladas de resíduos têxteis. Apenas duas toneladas são encaminhadas para reciclagem – desfibrilamento e insumos para artesanato da Rede Asta. Ou seja, 62 toneladas de resíduos têxteis viram lixo e têm como destino o aterro sanitário ou o incinerador. Moda sustentável ou greenwashing? (Dados do site Roupartilhei, que reportou visita à loja da Farm no Rio de Janeiro em abril de 2019).

Para a líder, designer e fundadora da marca de upcycling Think Blue, Mirella Rodrigues, a iniciativa da marca carioca não passa de greenwashing. Ela publicou um vídeo na conta do Instagram da marca com o título “Atente-se ao Greenwashing” .

Nesse vídeo, Mirell questiona pontos interessantes:  

  1. De que adianta criar uma coleção com atributos sustentáveis se toda a sua linha de produtos é extremamente impactante? Mirella cita que 60 toneladas de resíduos têxteis são incineradas pelo grupo da marca todos os meses. 
  2. A coleção Re-Jeans se apropria da estética upcycled (recortes com tons diferentes), mas não do modo de produção, com uso de material reutilizado a partir de peças descartadas, no caso o jeans.  
  3. Qual o real impacto das peças da coleção da Farm? Quem são os fornecedores do jeans? Como checar a informação de que esse insumo gera menos impacto?

“Greenwashing é enganar o consumidor com práticas sustentáveis e, por trás, a marca gera um impacto muito grande e faz algo pequenininho e parece que ela está pensando em tudo, mas não está. […] Assim como  a gente questiona as gigantes do mercado fast fashion, temos que questionar as marcas brasileiras também.”
Mirella Rodrigues – Think Blue

Resíduos têxteis no Brasil

Os dados sobre resíduos têxteis no Brasil no início deste post foram divulgados em um artigo publicado na revista Gestão e Produção por especialistas da Universidade de São Paulo (USP). Já as informações sobre os EUA foram reveladas por pesquisa conduzida pela EPA – Environmental Protection Agency, agência de proteção ambiental estadunidense, e divulgada pela organização Retail Dive

No Brasil, os especialistas apontam que há um mercado de resíduos têxteis que precisa ser conhecido e explorado internamente. Os autores analisaram a sustentabilidade na competitiva indústria têxtil que precisa lidar com redução de uso de água e energia, além de formas de reduzir as perdas e reciclar resíduos. 

Atualmente, existem 32 mil indústrias brasileiras que disputam uma fatia no mercado mundial de têxtil e de vestuário, de US$ 797 bilhões. Porém, apenas 21 fazem reciclagem de tecidos de acordo com o artigo. Cinco delas, localizadas no estado de São Paulo, foram avaliadas para entender os principais desafios existentes na reciclagem mecânica ou química e apontaram a necessidade de incentivos fiscais e de centros de logística e transporte para reduzir o custo da reciclagem. 

O custo do quilo de tecido descartado varia de R$ 0,05 (naqueles tecidos mistos) a R$ 1,00 para tecidos de algodão coloridos, que podem ser coletados nas ruas que concentram fábricas têxteis ou comprados ou recebidos diretamente de empresas. A otimização e incentivo no sistema de coleta diminuiria o custo da reciclagem.

“O Brasil oficialmente importa mais de 223 mil toneladas de resíduos desde janeiro de 2008, a um custo de US$ 257.9 milhões. No entanto, no mesmo período, o país deixou de ganhar cerca de US$ 12 bilhões por deixar de reciclar 78% de resíduos sólidos gerados internamente, graças a falta de coleta seletiva.”

O artigo recomenda investimento em educação e incentivo a uma mudança sistêmica no modelo atual da produção têxtil para uma economia criativa e sustentável. Os consumidores podem contribuir com esse movimento, mas as indústrias têxtil e da moda precisam de incentivos, conscientização e regulamentação para lidar com o problema dos resíduos de tecidos.

Estados Unidos

Já as informações relacionadas aos resíduos têxteis dos EUA, aponta que a quantidade de têxteis que acabaram em aterros também teve um aumento acentuado, de 1,71 milhões de toneladas em 1960 para 10,5 milhões de toneladas em 2015, o que equivale a 66% do lixo têxtil. 

Mais de uma dúzia de categorias foram analisadas pela EPA com os plásticos mostrando o maior aumento de resíduos desde 1960, a uma colossal 8.746%. Borracha e couro, materiais comuns utilizados em calçados e vestuário, também mostraram um aumento significativo de 361%. 

Embora o desperdício seja gerado de ambos os lados, por meio dos consumidores e das marcas que produzem os produtos, as empresas podem ser fundamentais para definir o tom das práticas éticas. Com a sustentabilidade continuando a ser um tópico premente em todos os setores, muitas marcas anunciaram novas iniciativas para apoiar os esforços de uma moda circular.

Deixe uma resposta