Ronaldo Fraga: moda ativista por reafirmação cultural

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Foto: Instagram @bcddesign2019

Tecer afetos para vestir, alinhavar engajamento político, cerzir memórias e modelar posicionamentos políticos a partir da dignidade humana. Eis o meu “croqui” escrito sobre a moda ativista de Ronaldo Fraga. O estilista mineiro ministrou a palestra Tecendo histórias – moda como instrumento de reafirmação cultural na noite do dia 13 de agosto, durante o  2º Brasília Cidade Design. O evento gratuito foi realizado no Complexo Cultural da República e ofereceu mais de 50 atividades, entre palestras, oficinas, pitches e debates com personalidades nacionais e internacionais entre 13 e 17 de agosto. 

O trabalho de Fraga é, na minha opinião, referência da simbiose entre moda e política. Ele entende a moda como vetor múltiplo: cultural, econômico, histórico, antropológico, sociológico, político, identitário, artístico. Vai muito além da cadeia produtiva e está sintonizado com histórias de pessoas, afetos, obras de arte, poesia e, sempre, o Brasil profundo. “A escolha da moda é política”, define.

Fraga relembrou que a principal inspiração para ingressar no mundo da moda foi o trabalho de Zuleika Angel Jones (1921-1976), a Zuzu Angel. O martírio da estilista – mineira como ele – se tornou internacionalmente conhecido quando ela usou a própria criação, na década de 1970, para denunciar a ditadura militar brasileira. Militantes de esquerda, seu filho Stuart Angel e a nora Sônia Maria foram assassinados por agentes da repressão. Poucos anos depois, ela morreu em acidente automobilístico tramado por agentes da repressão. No vídeo abaixo você pode assistir a um registo do desfile-protesto de Zuzu Angel, em 1971. A apresentação foi realizada na embaixada brasileira dos EUA e simboliza luta da estilista.

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“Eu li o livro 1968, o ano que não terminou, de Zuenir Ventura, e fiquei admirado com Zuzu e sua coragem. A partir de então, passei a pensar na roupa como escrita. ”
Ronaldo Fraga

No Verão de 2001/2002, Fraga lançou a coleção Quem Matou Zuzu Angel em homenagem à musa. No livro Caderno de Roupas, Memórias e Croquis (Belo Horizonte, 2015, Ed. Cobogó), a descreve como “primeira estilista a falar em identidade da moda brasileira”. A obra traz o texto do criador mineiro sobre essa icônica coleção na qual descreve o conceito, as formas, as cores, os tecidos, as estampas, os sapatos, a trilha, o cenário e os detalhes.

Alguns conceitos da coleção foram “vestidos de anjos de coroação e babado de capa de butijão”. Para forma, escolheu babados em canudinhos, camisas quadradas e saias nesgadas, enviesadas, retas e falsas. A paleta de cores incluiu desde tons delicados como azul “altar de coroação”, rosa “cashmere bouquet” e verde “samambaia-chorona” até os elétricos, como turquesa, cereja e gema. Todos os tecidos têm cara de 100% algodão, até os sintéticos. As estampas remetem para um universo lúdico e eternamente feliz do cartão de Dia das Mães.

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Look e Croqui do desfile ‘ Quem matou Zuzu Angel?’

Currículo

Pós-graduado pela Parsons School of Design de Nova Iorque, Ronaldo Fraga é reconhecido como um dos principais estilistas de moda com DNA brasileiro. Seus desfiles estabelecem um diálogo da cultura brasileira com o mundo contemporâneo e abordam temas do nosso cotidiano e história. Acumula prêmios como Ícone de Moda IED (Instituto Europeu de Design), O Planeta Casa (Editora Abril), Ordem do Mérito Cultural, Medalha da Inconfidência (Governo de MG), Prêmio APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte), Prêmio Shell 2018 de melhor figurino pela peça “A Visita da Velha Senhora” e Press Awards 2018 na Flórida – USA.

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Em sua palestra no Brasília Cidade Design, Fraga contou sobre o manifesto por respeito aos transexuais que ele liderou durante a SPFW de 2016. “A mensagem foi travestida em imagem potente de moda através da sensibilidade das décadas que inspiraram a coleção, de 1920 e 30”, escreveu a Vogue Brasil à época. O título da coleção homenageou a loja do estilista baiano Ney Galvão em Ibatuna (BA), reduto de quem procurava looks e acessórios para produções: “El Dia que me Quieras” e também do famoso tango de Carlos Gardel, de 1935. Ele exibiu o vídeo abaixo:

O estilista falou também sobre a coleção As Mudas – Para Um Verão Que Virá, de abril de 2018, quando levou para a passarela o trabalho de bordadeiras de Barra Longa (MG), cidade atingida pelo crime ecológico de Mariana (MG). O cenário do desfile foi inspirado na bacia hidrográfica do Rio Doce e em retratos das famílias obrigadas a abandonar o próprio modo de vida.

Convidei-as para bordar os jardins que existiam: plantas e bordados possuem a mesma magia de uma fala estrondosamente silenciosa e triste. 
Ronaldo Fraga- abril 2018

Fontes:  We are Human, Vogue, Uai , Portal Ecoera e Absurdinhus

 

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