Moda ativista: criar e vestir para mudanças pelo bem do planeta

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Foto: Instagram @thinkblue_upcycled

Em plena Era da Informação, com a Quarta Revolução Industrial em curso e o colapso climático mudando nossa relação com a natureza, a Moda é uma força de expressão para a mudança que beneficia a vida no Planeta. A transformação está no Twitter da modelo famosa, na luta identitária das minorias, no protesto político na passarela, no comércio justo, na segurança alimentar de quem cultiva as fibras que vestimos, nas condições de trabalho e segurança social para quem desenha, costura, transporta, estoca, produz, divulga e vende.

A mudança na moda, ou pelo menos a necessidade dela, está na capacitação de jovens para automação, internet das coisas, inteligência artificial e indústria 4.0, no uso racional da água, na preservação dos biomas, no enfrentamento à desigualdade, na inclusão, na arte, na geração de emprego e renda, na sustentabilidade e nos afetos. A moda, como sempre, se reinventa. Ela é o espelho do tempo presente. 

Moda é potência, voz, contemporaneidade. Essa força ecoa, por exemplo, no ativismo ambiental de Gisele Bündchen, que falou com Michel Temer em favor de áreas protegidas da Amazônia.

 Depois de uma semana, o então presidente usou a mesma rede social para responder: “Gisele e WWF, vetei hoje integralmente todos os itens do MPs que diminuíam a área preservada da Amazônia“. 

Estilistas como a britânica Katharine Hamnett, que na década de 1980 passou a usar a moda como uma plataforma para o seu ativismo em prol dos oceanos, do algodão orgânico e causas sociais, fortaleceram a construção de um cenário onde a moda passou a ser usada como plataforma política.

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#Repost @bagsofethics – for those of you who missed Katharine on Radio 4 yesterday, here are some highlights ・・・ FASHION TAX OR NO FASHION TAX? – THAT IS THE QUESTION With fashion brands coming under more scrutiny in terms of their environmental and ethical costs leading fashion designer Katharine Hamnett has fired back at a UK government committee’s suggestion of a 1p-per-garment tax as “stupid”. Read more about her rationale below but what are your thoughts? 🤔 The suggestion was made by a Commons committee in an effort to fund better recycling of clothes. It came amid growing fears that the industry is increasingly dominated by throwaway "fast fashion". But Ms Hamnett said she feared the garment industry would just end up paying workers less to absorb the tax. Instead, she is in favour of EU legislation making it mandatory for goods from outside Europe to meet the same standards required by the region. She told @bbc that taxing retailers would be "like putting a plaster on a septic wound". "The reason we say legislation is that the brands are not going to do it willingly – we've seen that, we've been talking about this for too long and nothing's changed. They have to be forced by law," the designer, who is known for her political slogan T-shirts and ethical fashion activism, told BBC Radio 4's Today programme. "Wouldn't it be better to force brands to pay their workers properly, and not discharge toxic chemicals into the environment, rather than making them pay for the privilege to do that?" We at Bags of Ethics have been taking a lot of steps to help our colleagues across the supply chain have better practices in terms of their impact on the environment. With 700,000 synthetic fibres being released into the environment from washing we try and make our products from long lasting biodegradable materials like cotton which are often untreated. The inks we use are REACH compliant under EU regulations and do not contain harmful toxins such as phthalates. Read more about our practices on our blog – we are not there yet, but we are trying! 💚 Photo credit @guardian Quotes from @bbc @bbcradio4

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Vivienne Westwood, primeira-dama do punk inglês, é outra referência da moda ativista. Ela criou o movimento Climate Revolution para levantar pautas sobre questões climáticas, além de fazer parcerias com outras organizações e difundir a mensagem sobre moda consciente. Uma de suas famosas frases é: “compre menos, escolha melhor e faça durar”.

Para pautas identitárias, o ativismo na moda tem caimento perfeito. Como o casal de modelos Finn Buchanan, um homem trans e Maxim Magnus, uma mulher trans, engajado em conquistar espaço para profissionais transgêneros na indústria na moda. Nas redes sociais, eles criaram o movimento #TransIsNotATrend (“trans não é uma moda”), enquanto cruzam passarelas desafiando padrões de gênero.

Hanne Gaby Odiele é belga e intersexual, ou seja, nasceu com órgãos e características de ambos os sexos. Em suas redes sociais, discute sua experiência de ter passado por diversas cirurgias na infância, e de ter descoberto ser intersexual aos 17 anos. Hoje, luta pelo fim das cirurgias de confirmação de gênero em crianças, quando elas ainda não têm poder de escolha sobre o próprio corpo.

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Start you week off juicy! 🍉😝✌️ @_matkat

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Ativismo brasileiro

No Brasil, Bia Saldanha faz parte da história do ativismo na moda. Ainda nos anos 1980, após o assassinato de Chico Mendes, ela disse em entrevista que não bastavam as camisetas e as palavras de ordem nas passeatas, nem as matérias nos jornais. Ela percebeu que não salvaria a Amazônia de Ipanema. Dois meses depois, foi chamada para uma missão em Altamira (PA) e pode conhecer a floresta. A experiência foi um divisor de águas na vida dela e a colocou a serviço da floresta. Hoje, é a estilista responsável pela comunidade de seringueiros que produzem para a marca de tênis Vert.

Temas socioculturais, ambientais e políticos são a marca registrada do estilista mineiro Ronaldo Fraga. Em 2016, ele liderou um manifesto por respeito aos transexuais a SPFW daquele ano. “A mensagem foi travestida em imagem potente de moda através da sensibilidade das décadas que inspiraram a coleção, de 1920 e 30”, escreveu a Vogue Brasil à época.

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Foto: Charles Naseh

Este ano, na SPFWN47, Ronaldo Fraga apresentou a coleção inspirada na obra “Guerra e Paz”, de Cândido Portinari. Os dois painéis foram encomendados pela ONU e contrapõe o massacre do povo e sua capacidade em expressar alegria. Em um exercício de ficção, Fraga questiona Portinari como seria tal obra diante da atual situação lamentável do país? 

O desfile de Fraga fez ecoar um manifesto político contra os inúmeros retrocessos políticos, sociais e ambientais em curso. Como é marca em sua trajetória, ele mostra que a passarela é também local de resistência política. Ao longo de sua carreira, ele contou várias histórias por meio da moda e, de forma lúdica, colorida e fluida, abordou assuntos conectados com o dia a dia das pessoas comuns. 

Em novembro de 2018, logo após a eleição de Jair Bolsonaro para a Presidência da República, a Think Blue, marca carioca de jeans reciclado, apresentou modelos segurando cartazes de cunho político. Foi durante a 2ª edição Brasil Eco Fashion Week (BEFW), entre o dias 15 e 17, no Unibes Cultural, em São Paulo.

A Think Blue é liderada pela designer e fundadora da marca Mirella Rodrigues, que trabalha com upcycling de jeans garimpados ou doados. Ela pratica um modo de produção circular, não usa um rolo de tecido novo, por exemplo. Apenas o que já existe. Dá um novo destino às peças consideradas descartáveis.

Durante o desfile, as modelos entraram segurando cartazes com frases machistas, homofóbicas e misóginas proferidas pelo atual ocupante do Palácio do Planalto.

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