Outfit Comuna: resistir sem perder a ternura

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Foto: Sérgio Lima/Poder360

No décimo Outfit Comuna | Moda & Política Cynara Menezes, editora do site Socialista Morena, usa figurino revolucionário em que mesclou peças de brechó e acervo pessoal para comentar uma dezena de absurdos do governo da necropolítica bolsonarista. Na 23ª edição do programa do Poder360, que ela apresenta semanalmente com Mario Rosa, o reaça offline, eles comentam as 10 frases mais grotescas e escatológicas proferidas pelo ecocida do Planalto.

O Top 10 das gafes de Jair reúne declarações vomitivas proferidas desde o 1º dia da gestão, em 1º de janeiro de 2019. Entre elas, as várias ocasiões em que o presidente utilizou o termo “cocô”, o momento em que citou que a“questão ambiental só é importante para veganos” e o episódio em que chamou os mandatários do Nordeste de “governadores de Paraíba”Assista ao quadro (30min33seg):

Outfit Comuna 

OutFit Comuna (logo)
Logo produzida por Jana Fernandes e Milena Fernandes para o blog.

Cynara usa calça preta do brechó 2nd Best Hand, que pela segunda vez foi parceiro do Outfit Comuna. Confira aqui sobre o empreendimento de Deni Moraes. A camiseta e o lenço são do acervo pessoal da editora do site Socialista Morena. As fotos são de Sérgio Lima (Poder360).

 

 

Moda é resistência

A camiseta vermelha de Cynara traz uma estampa irônica para o termo “Balbúrdia”, com a seguinte definição: Ato de colocar negros e pobres na universidade, lugar até então exclusivo dos brancos. A expressão foi utilizada pelo ministro da (des)Educação, Abraham Weintraub, em maio deste ano, para justificar o critério para bloqueio de recursos para as instituições federais de ensino superior. Virou meme estampado de diversas maneiras em camisetas, faixas e cartazes por estudantes e defensores da educação pública de qualidade em manifestações Brasil afora.

Nesta quinta (29 de agosto), três meses após a declaração, Weintraub está de pires na mão diante do orçamento previsto para 2020, que paralisa (com S), as universidades e institutos federais. Enviou um ofício para o ministro da Economia, Paulo Guedes, com erros de ortografia: “com isso, haverá a paralização (sic) de cursos, campi e possivelmente instituições inteiras”, escreveu. No mesmo documento, redigiu “suspenção” em lugar de “suspensão”.

Assim como na camiseta de Cynara, a resistência ao obscurantismo é impulso de marcas de moda que tem à frente pessoas com engajamento político. Como a Golpe Store, de Nara Vila Nova, loja virtual nascida no Recife (PE) que aposta nos temas sociais com viés progressista para passar sua mensagem de resistência.

Também é de Pernambuco a Artéria – Arte de Vestir, marca de Dani Acioli e Raphaela Pimentel, que aposta em tecidos tecnológicos e em estampas feministas. Eu já falei sobre os desenhos de Dani aqui no blog neste post .

Black bloc e Che Guevara pop

O lenço com a estampa de Che Guevara que Cynara utiliza é um prato cheio de símbolos políticos que a moda nos proporciona. Ela faz referência aos black blocs, tática de guerrilha urbana utilizada em manifestações de rua que foi muito adotada durante as Jornadas de Junho, em 2013. A expressão foi bastante usada pela imprensa, redes sociais e rodas de conversa. Esses manifestantes usam roupas pretas ou de tons escuros e cobrem os rostos com uma máscara que pode de algum personagem ou apenas um lenço ou uma camiseta.

A expressão black blocs (bloco preto, em inglês) remonta à República Federal Alemã (Alemanha Ocidental) no início da década de 1980. Foi a imprensa alemã ocidental que cunhou o termo Schwarzer Block para fazer referência a grupos de pessoas que se organizavam para enfrentar a repressão policial. Tal repressão foi desencadeada em decorrência da luta de grupos autonomistas alemães (marxistas não ligados às burocracias partidárias e sindicais) contra a construção de usinas nucleares, para a defesa de suas ocupações (squats) de casas e edifícios abandonados em grandes cidades e também para se defenderem de ataques de grupos neonazistas.

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Já a estampa do lenço traz o argentino Ernesto Guevara de La Serna, uma das pessoas mais conhecidas do século XX. Participou da Revolução Cubana ao lado de Fidel Castro e ajudou a derrubar o ditador Fulgêncio Batista, em 1959. Em 1967, Che Guevara foi capturado por tropas bolivianas e executado. O líder revolucionário que se transformou em um ícone pop é exemplo de como o regime capitalista ao qual ele fazia oposição acabou se apropriando de sua imagem, de forma a obter enormes lucros por meio da moda.

Após sua morte, Che teve a imagem explorada pela indústria cultural, que transformou uma foto feita por Alejandro Corda em que usa boina preta, com cabelos ao vento e olhar para o horizonte, em uma das imagens mais conhecidas e vendidas da história. Os capitalistas fizeram milhares de mercadorias a partir dessa imagem, como pôsteres, chaveiros, camisetas, pratos, canecas e tatuagens.

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Foto: Alejandro Corda

 

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