Outfit Comuna: pink money e o neoliberalismo

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Hanna Yahya/Poder360

No 11º Outfit Comuna | Moda & Política Cynara Menezes, editora do site Socialista Morena, usa camiseta em defesa da comunidade LGBTI para destacar a força da moda identitária e do pink money. Na 24ª edição do programa “Reaça & Comuna”, do Poder360, que ela apresenta semanalmente com Mario Rosa, o reaça offline, eles analisam, entre outros temas, a escolha do novo procurador geral da República.

Para o presidente Jair Bolsonaro, se o governo fosse um xadrez, a PGR seria “a dama”. Além disso, citam o episódio em que o líder brasileiro foi ungido pelo bispo Edir Macedo – fundador da Igreja Universal Reino de Deus e dono da Rede Record. Mario e Cynara também comentam os novos episódios na relação Bolsodoria. Na 4ª (4.set.2019), Bolsonaro disse que o atual governador de São Paulo, João Doria, “não tem chance” na corrida presidencial de 2020. “É ejaculação precoce”, afirmou o presidente. Assista ao quadro (34min32seg):

Outfit Comuna

OutFit Comuna (logo)
Logo produzida por Jana Fernandes e Milena Fernandes para o blog.

Cynara usa camiseta do coletivo Distrito Drag do acervo pessoal. As fotos são de Hanna Yahya/Poder360.

 

Distrito Drag

A camiseta usada por Cynara é do coletivo brasiliense Distrito Drag. Desde 2017, a partir de prosas, encontros e ações conjuntas de diversas artistas drag queens da capital federal, o grupo atua para fortalecer e dar visibilidade para o trabalho cultural da comunidade LGBTI+, que vinha acontecendo de maneira isolada.

Os encontros para a troca de experiências foram apenas e começo e o coletivo passou a construir espaços e projetos com cunho cultural, político e social. Às diversas iniciativas como oficinas de iniciação à arte drag e projetos sociais, somaram-se ações de articulação conjunta e com caráter político. Como quando mais de 34 drags em uma nota pública se posicionaram a favor da Portaria nº 277 da Secretaria de Cultura do DF, de 28 de setembro de 2017, que instituía a Política Cultural LGBTI+ e repudiava os ataques da bancada evangélica da Câmara Legislativa do Distrito Federal.

As drags perderam a disputa, quando à época o GDF recuou e revogou a portaria. Mas elas seguiram firmes e sinalizaram o potencial organizador das drags queens com a produção do Calendário Drag Queen, conhecido como Calendrag. O projeto mobiliza cerca de 50 pessoas entre dragqueens, fotográfos e equipe de produção, num processo de trabalho voluntário e solidário em prol da causa LGBTI+.

Em 2019, na segunda edição do calendário, as fotos das queens prestam homenagem a mulheres cis e trans que contribuíram com a política, a cultura e a história da humanidade. Entre elas, Elke Maravilha, Janaína Dutra (primeira travesti portadora de carteira profissional da Ordem dos Advogados do Brasil, a OAB), Madame Satã e Marielle Franco.

O CalenDrag 2019 é fruto de trabalho coletivo e colaborativo de designer, fotógrafos e artistas drag queen. Do valor arrecadado, 80% foi revertido para organizações de atendimento a mulheres cis e trans – a União Libertária de Travestis e Mulheres Transexuais (Ultra) e Casa Frida. O valor restante é utilizado para projetos do Distrito Drag.

Dinheiro cor-de-rosa

O termo ‘dinheiro cor-de-rosa” [pink money] surgiu nos Estados Unidos no final da década de 1970, quando vários grupos homossexuais estavam organizados juridicamente e não dispunham de patrocinadores para suas ações (publicação de jornais, revistas, realização de congressos etc.). Unido, o movimento gay americano definiu um dia de protesto nacional. Nesse dia, toda a nota de um dólar que passasse na mão de um gay deveria ser riscada com uma caneta rosa (pink) no canto superior direito. Da noite para o dia, milhares de milhões de notas amanheceram coloridas apontando a força do pink money.

Esse poder de consumo da comunidade LGBT+ não passa despercebido pelas marcas, inclusive e, sobretudo, as de moda. É um mercado que movimenta mais de 3 trilhões de dólares ao redor do mundo. Apenas no Brasil, de acordo com dados da consultoria LGBT – Capital, esses consumidores movimentam a economia do país com pelo menos R$ 160 bilhões por ano.

Em 2019, a Parada LGBT de São Paulo (SP) movimentou R$ 403 milhões na economia da cidade, segundo levantamento realizado pela Secretaria Municipal de Turismo. O evento, realizado no dia 23 de junho, reuniu público estimado em três milhões de pessoas na avenida Paulista, segundo os organizadores. O valor é 40% maior ao registrado pela prefeitura no ano ano passado. Em 2018, apenas no setor hoteleiro, o público LGBTI+ deixou, por dia, R$ 2,4 milhões na cidade, conforme dados da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis de São Paulo – ABIH.

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23.jun.2019 – Público durante a 23ª edição da Parada LGBT+, na avenida Paulista, em São Paulo Imagem: Eduardo Anizelli/Folhapress

Criptonita de neoliberal

A realidade do poder do pink money esfacela a visão neoliberal de que a responsabilidade das empresas se restringe única e exclusivamente ao lucro. Para a turma do ministro da Economia, Paulo Guedes, empresário com visão social não passa de fantoche de um discurso intelectual para minar a base de uma “sociedade livre”. Esse foi o posicionamento do economista Milton Friedman, um dos líderes da escola de economia de Chicago, defensor do neoliberalismo e mentor de Guedes.

Em 1970, Friedman escreveu o artigo The Social Responsability of Business is to Increase its Profits (A Responsabilidade Social das Empresas é Aumentar o Lucro) no The New York Times. No texto, ele criticava as empresas que tentavam adotar posturas éticas e desenvolver uma consciência social, dizendo que isso era uma “fachada hipócrita”, um estado de “miopia” e um “impulso suicida”.

 

 

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