Moda brasileira fora do mapa da economia circular

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A Moda brasileira parece estar alheia à urgência necessária para as transformações estruturais de um modelo linear para um modelo circular. A publicação ‘Economia Circular – Caminho Estratégico para a Indústria Brasileira’, lançado esta semana pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), traz apenas um pífio resumo de um estudo disponível na página eletrônica da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (ABIT), datado de 2016.

O ensaio ‘A Quarta Revolução Industrial do Setor Têxtil e de Confecção – A Visão de Futuro para 2030’, publicado por Flavio da Silveira Bruno pela editora Estação Letras e Cores, já foi tema deste post aqui no blog. Trata-se da primeira etapa de um processo mais amplo de orientação contínua da economia produtiva têxtil e de confecção brasileira. De concreto, absolutamente nada sobre economia circular em escala.

A publicação da CNI traz o resumo do ensaio de Bruno e pinça dados sobre economia circular. Destaca que há uma tendência ambiental no setor têxtil e de confecção na adesão de modelos de negócio circulares e chama a atenção para a necessidade de se criar novos materiais, mais fáceis de reciclar e de reutilizar, que consumam menos água e energia de transformação e que sejam biodegradáveis. Cita ainda o desenvolvimento de novos processos mais eficientes, evitando desperdícios de qualquer natureza.

O estudo sobre a visão de futuro do setor têxtil e de confecção deixa evidente vários pontos relacionados à preocupação no setor em migrar para uma economia circular e destaca a importância de mensurar impactos para avaliar a efetividade das mudanças. Ou seja, existem isoladamente diversas práticas circulares sendo desenvolvidas, mas não se encontram nesse documento dados estatísticos gerais para o setor em relação ao assunto.

Outro ponto que chama a atenção na publicação lançada pela CNI diz respeito à Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) para a cadeia produtiva da moda. Não há um mísero dado sobre resíduos têxteis, ou informações sobre iniciativas que estimulem a aplicação de conceitos de circularidade, a redução da geração de resíduos, a logística reversa e a reciclagem e o compartilhamento  das responsabilidades pela gestão e destinação de resíduos etc. Fica a sensação de que têxteis sequer são considerados resíduos sólidos diante da total omissão das empresas e entidades representativas do setor sobre o assunto. Eu já escrevi sobre esse assunto aqui no blog:  Lixo têxtil é caso de política

Para além da falta de sintonia da indústria brasileira da moda com a economia circular, o fato é que não há no Brasil uma estratégia nacional para implementação de um modelo econômico circular. Porém, existem algumas políticas, programas e planos que, de certa forma, buscam a sustentabilidade por meio de práticas circulares e trabalham com temas relacionados. Como a PNRS (Lei 12305/2010), que foi a primeira política pública que aborda de forma mais completa a gestão de resíduos, debatendo diversos instrumentos de gestão empregados em economias circulares; a Política Nacional Sobre Mudança do Clima (Lei 12187/2009), a Política Energética Nacional (Lei 9478/1997), entre outras.

Junto a políticas públicas, uma transição para a economia circular requer investimentos para que as empresas possam adquirir tecnologias e desenvolver processos que conduzam suas atividades para um modelo circular. As empresas no Brasil podem obter financiamento de instituições de fomento, como do BNDES, ou dos principais bancos que operam no país. Outra possibilidade de aporte financeiro é por meio da emissão de títulos verdes (green bonds).

A publicação da CNI conclui que no Brasil, para que a lógica circular se realize, será necessário maior investimento em educação e inovação. Além disso, políticas públicas brasileiras precisam ser ajustadas para maior estímulo ao reaproveitamento de resíduos e utilização de bens reciclados. O caminho estratégico apresentado no documento relacionou cinco linhas de atuação que precisam ser trabalhadas para aceleramos a transição para a economia circular no Brasil:  políticas públicas; educação; pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I); financiamento; e mercado (ambiente de negócios).

 

 

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