É possível uma moda sustentável no sistema capitalista?

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Confira meu texto para o blog do Fashion Revolution na CartaCapital sobre palestra do líder indígena Aílton Krenak. 

O líder indígena, ambientalista e escritor brasileiro Ailton Krenak, 67, é um símbolo da resistência dos povos originários. Em 1987, durante a Assembleia Nacional Constituinte, protagonizou o histórico discurso no qual pintou o rosto com tinta preta de jenipapo para protestar contra o retrocesso na luta pelo direito dos povos indígenas. Mais de três décadas depois, a cena se reveste de urgência diante da necropolítica instalada no Palácio do Planalto desde janeiro de 2019.

No último dia 10 de março, Krenak participou da aula de boas-vindas #InspiraUnB e semeou reflexões entre os estudantes que ingressaram na Universidade de Brasília neste primeiro semestre de 2020. Em discurso em prol da coletividade, da tolerância, da ciência e da paz, o ativista contagiou o público do Centro Comunitário Athos Bulcão com acolhida afetuosa e impactante.

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Na ocasião, o indígena, que arranca suspiros e admiração por onde passa, com sua voz suave, paciência e atenção ao interlocutor, deixou-se fotografar com a plaquinha #QuemFezMinhasRoupas?, mote do movimento Fashion Revolution, o qual represento em Brasília-DF.

Depois de ler “Ideias para adiar o fim do mundo” (Companhia das Letras, 2019) eu não conseguia tirar da cabeça o ponto de vista de Krenak sobre os tempos atuais e sua relação com a proposta de moda ética do Fashion Revolution.

“Quando despersonalizamos o rio, a montanha, quando tiramos deles os seus sentidos, considerando que isso é um atributo exclusivo dos humanos, nós liberamos esses lugares para que se tornem resíduos da atividade industrial e extrativista. Do nosso divórcio das integrações e interações com a nossa mãe, a Terra, resulta que ela está nos deixando órfãos, não só aos que em diferente graduação são chamados de índios, indígenas ou povos indígenas, mas todos.”
Destaque da contra-capa de “Ideias para adiar o fim do mundo”

Tomei coragem e entrei em contato com ele por meio de mensagem para convidá-lo a falar durante a Semana Fashion Revolution 2020, que será realizada entre os dias 20 e 26 de abril. A proposta era que ele compartilhasse a perspectiva de sustentabilidade a partir da cosmovisão indígena.

Na mensagem, fiz uma breve apresentação sobre o movimento Fashion Revolution, criado após o desabamento criminoso do edifício Rana Plaza, que abrigava confecções de roupas em Daka (Bangladesh), no dia 24 de abril de 2013. A tragédia deixou mais de 1.100 mortos e 2.500 feridos. Presente em mais de 100 países, o nosso movimento desenvolve ações mobilizadoras para incentivar as pessoas a questionarem os impactos positivos e negativos da moda.

Expliquei a Krenak que, em Brasília, levamos o evento para o Congresso Nacional desde 2018, quando assumi a tarefa de representante. A proposta do Fashion Revolution na capital federal é debater políticas públicas que possam minimizar, em escala, os impactos negativos da moda no meio ambiente e na vida das pessoas, sobretudo trabalhadoras e trabalhadores dessa cadeia produtiva.

Por questões de agenda, o líder indígena declinou do convite. “Obrigado por me dar conhecimento sobre este tema tão significativo para nosso insuportável mundo de consumo, onde as pessoas são levadas a pensar ‘você é o que parece, o que veste, o que consome e outras ilusões’. A produção de roupas, de alimentos e de muitas mercadorias do consumo global vem das cadeias de produção sustentadas por trabalho escravo, ou condições análogas à escravidão. É fundamental alertar sobre esta injustiça oculta nas etiquetas e selos de sustentabilidade’, comentou em sua resposta à minha mensagem.

Quando soube da presença dele no evento de boas-vindas aos calouros da UnB, cheguei cedo para garantir meu lugar e inscrevi minha pergunta, que acabou sendo sorteada e respondida por ele.

– É possível ter uma vida sustentável no sistema capitalista?

Resposta: Essa pergunta é uma pergunta forte porque ela já traz a resposta dentro dela. A história das diferentes experiências sociais e econômicas recentes que nós tivemos no mundo inteiro, e nos últimos 40 anos de prevalência do neoliberalismo, responde essa pergunta. O Capitalismo devora o planeta. Ele é insustentável. Então, se alguém conseguir viver de maneira sustentável dentro do Capitalismo, ele precisa ensinar isso para a gente nas universidades.”

Durante a palestra ministrada na UnB, Krenak ressaltou que a sociedade brasileira ainda é pautada pelo individualismo e pela meritocracia. “Esse tipo de sociedade retira de cada um de nós o que há de mais capaz de invenção, que é a nossa subjetividade. Ela nos põe em um lugar em que nossa imaginação e sonho ficam em subterfúgio”, afirmou.

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Eu, meu filho Arthur Vidal, Ailton Krenak e Luna lindinha

Na contramão desse status quo, o indígena convidou os presentes a expandir o campo da subjetividade e suas perspectivas individuais, para se compreenderem como sujeitos coletivos – segundo ele, aqueles que “podem habitar a experiência de constituir uma comunidade temporária em qualquer lugar onde estiver”. Assim como fazemos no Fashion Revolution, com nossas coletividades em prol de uma causa que é de todas e todos.

Krenak provocou a plateia a aprender a partir da convivência e da colaboração. Para ele, o desafio das instituições de ensino superior é ir muito além das fronteiras da religião, das crenças e do pensamento para constituir cosmovisões – diferentes visões de mundo.

Nascido na região do Vale do Rio Doce, em Minas Gerais, Krenak destacou o mosaico de povos que constituíram a América Latina, mistura cultural que não só fomentou ricas experiências, mas também deixou como heranças o colonialismo e a escravidão.

Ao considerar essa pluralidade e as lacunas provocadas por essas marcas históricas, ele reiterou que é preciso que cada um ultrapasse o sentido de tolerância com o outro e se abra para compreendê-lo, o que possibilita experimentar a diversidade cultural. “Quando você perceber que está tendo que tolerar o seu colega, pense bem se não deveria ir além do limite da tolerância e se tornar capaz de experimentar a visão que ele tem do lugar que vocês compartilham”, defendeu.

Essa possibilidade de contemplar diversas perspectivas é o que move, também, o movimento Fashion Revolution. Este ano, em dezenas de cidades dos quatro cantos do país, vamos questionar #QuemFezMinhasRoupas e também #DoQueSãoFeitasMinhasRoupas. Conjugar sob diferentes perspectivas de que forma a moda pode catalisar mudanças estruturais que possam adiar o fim do mundo.

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Confira a palestra de Ailton Krenak na UnB:

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