Artigo: Moda Regenerativa – Não existe Planeta B

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Por Mariana Amazonas*

A porta de saída para um futuro possível são as culturas regenerativas. Nessa visão, o conceito de lixo é inventado e, na verdade, não existe. As coisas, sejam elas de qualquer natureza, só ganham esse título de resíduo por pura falta de criatividade ou, pior ainda, por puro descaso. As chamadas novas economias e iniciativas de moda regenerativa, tem práticas de mercado apoiadas no desenvolvimento de vantagens colaborativas, se fortalecendo ao gerar abundância compartilhada e atuando em rede. Apenas no Brasil, a indústria têxtil e de confecção gera mais de 175 mil toneladas de resíduos por ano. Refletindo sobre as potencialidades disso, quanta riqueza econômica, social e ambiental podemos gerar? Em contrapartida, a manutenção do sistema atual predominante pode nos custar a própria existência em tempos de aquecimento global e coronavírus.

“O mundo será diferente, somente quando nós vivermos diferente.”
Humberto Maturana e Varela 

Regenerativo ou sustentável? Olhando superficialmente, parece somente uma roupa nova para uma ideia antiga. Aprofundando essa reflexão, existem diferenças bastante relevantes entre os dois conceitos, agregando valores que vão além de novos ares à palavra sustentabilidade, já tão desgastada e mal tratada em nossos dias. Observando as florestas, é possível perceber melhor o significado dessa diferença. Naturalmente, as árvores têm estratégias e mecanismos que dão conta da sua sustentabilidade, ou seja, sua permanência. Em diferentes biomas, possuem métodos bem particulares para acumular água e nutrientes, mas elas vão muito além, integrando um sistema de alta complexidade. 

Na natureza, a arquitetura exuberante e a redundância de sistemas circulares de sobrevivência são demonstrações sofisticadas de design. Com atuação em rede, colaboração, conexão e sinergia. São exemplos emblemáticos desse sistema, o dióxido de carbono (CO2), a luz solar e a água, resíduo para uns, alimento para elas. Por fim, ao liberar oxigênio como parte de seu processo de fotossíntese, elas invertem o jogo, o que é resíduo para árvores se torna alimento para outros seres. As folhas e frutos que caem no chão se transformam em biomassa, fertilizam e atraem animais para melhorar o solo. E assim a vida segue criando condições para sua perpetuação.

Na natureza, a arquitetura exuberante e a redundância de sistemas circulares de sobrevivência são demonstrações sofisticadas de design. Com atuação em rede, colaboração, conexão e sinergia.

Sem grandes interferências, as árvores também criam um ecossistema mais saudável ao seu redor. Muitas vezes, aos seus pés, é possível ver suas sementes brotando. Essas pequenas mudas trazem uma infinidade de benefícios e melhorias sinérgicas, como umidade, rede de comunicação e, principalmente, perpetuam a possibilidade de uma futura floresta.

No entanto, ao fazer um recorte do modelo predominante em nossa sociedade, podemos questionar: como vamos nos tornar regenerativos se nem nos tornamos sustentáveis neste planeta? Felizmente, o mundo não é linear, por mais que as pessoas tentem limitá-lo a uma linha que liga o ponto A ao B. O vasto e complexo universo de múltiplas possibilidades pode criar propriedades emergentes imprevisíveis. Por isso, deixo o convite para que mais iniciativas como a Roda possam nascer, mesmo que comecem pequenas, elas podem ser revolucionárias. Porque nascem com a mesma amplitude de sistemas regenerativos e guardam por tanto as suas mesmas potencialidades.

A indústria têxtil e da moda, que sempre ditou tendências, infelizmente também está entre os setores que mais degradam esse planeta. Não temos mais tempo para melhorias incrementais. Precisamos de transformações profundas, orgânicas e sistêmicas que apontem na direção de um futuro possível para todos. 

A crise climática e social que enfrentamos hoje não nos dá escolhas. Temos que aprofundar nosso olhar para as complexidades que nos levaram a esse ponto e nos reimaginar. A indústria têxtil e da moda, que sempre ditou tendências, infelizmente também está entre os setores que mais degradam esse planeta. Não temos mais tempo para melhorias incrementais. Precisamos de transformações profundas, orgânicas e sistêmicas que apontem na direção de um futuro possível para todos. 

*Ecodesigner pela Schumacher College, cofundadora da RODA, uma iniciativa que nasce com propósito de criar formas regenerativas de consumir moda. Resignificando a relação com o hábito de vestir e trazendo luz para o impacto socioambiental dessa cadeia produtiva.  

Para saber mais @vem.pra.roda

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Moda Regenerativa: Não existe Planeta B

Referências

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