O caramujo, a púrpura e a exploração de mares nunca navegados

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A história da humanidade é contada a partir da luta pelas necessidades, igualdade, liberdade, segurança e autodeterminação. Nunca pelos luxos e frivolidades, como o gosto pela novidade e pela surpresa, ou a beleza de uma cor ou textura, aspectos do cotidiano no qual a moda está inserida. 

Ainda assim, figurinos e vestimentas impulsionam inovações tecnológicas desde o começo da existência humana. Tesouras, agulhas de costura e raspadeiras para converter peles de animais em proteção para o corpo estão entre as mais antigas ferramentas resgatadas da era paleolítica. 

Essa quantidade de inovações tecnológicas ter surgido a partir da produção têxtil pode indicar invenções por necessidade. Mas os registros arqueológicos estão repletos de ferramentas para fins decorativos e mostram que os humanos começaram a fabricar joias assim que passaram a produzir ferramentas. 

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Em “O poder inovador da diversão”, o escritor Steve Johnson, considerado um dos mais importantes pensadores da história da tecnologia, recria a trajetória do entretenimento e dos passatempos que os seres humanos criaram para se divertir e sobreviver à dura luta cotidiana pela vida: moda e consumo aparecem ao lado de jogos de azar, instrumentos musicais, ilusionismo e comidas exóticas. 

A obra de Jonhson reúne seis capítulos sobre os temas moda e consumo, música, paladar, ilusão, jogos e espaço público. Na abordagem sobre moda e consumo, o autor nos conduz para uma viagem por shopping centers e grandes lojas de departamentos, e mostra que qualquer um que deseje conhecer os caminhos da tecnologia e das tendências sociais deveria prestar atenção à maneira como nos vestimos, brincamos e divertimos. 

Caramujo Murex

Uma das experiências humanas narrada por Johnson é com o caramujo murex, que habita as águas rasas e piscinas de maré ao longo da costa do Mediterrâneo e as praias do Atlântico, desde Portugal até o Saara. Dele é extraído o pigmento púrpura, um produto de grande valor na Antiguidade. A cor não desbota, ao contrário, se torna gradualmente mais brilhante e intensa com a exposição ao tempo e à luz do sol. 

Era um item caro e transformou os produtos têxteis que o utilizavam em símbolos de status e poder. Havia até leis que ditavam quem poderia ou não usar indumentárias dessa cor, reservada apenas aos poderosos. 

Na Roma Antiga, apenas o Imperador podia vestir o símbolo do governo, uma capa de púrpura tíria costurada com linha de ouro, enquanto os senadores romanos eram os únicos que podiam usar uma faixa de púrpura tíria nas togas. 

No Império Bizantino, tornou-se a cor imperial usada pelos governantes. Também era a tonalidade do Sacro Império Romano e, mais tarde, pelos bispos católicos romanos. No Japão, a cor é tradicionalmente associada ao imperador e à aristocracia.

A técnica de extração do pigmento foi dominada e massificada pelos Fenícios. Tanto que a cor passou a ser conhecida pelo nome da cidade em que ocorria a extração em larga escala, Tiro. A cidade abrigava o principal porto marítimo da antiga Fenícia, no território conhecido atualmente como Líbano. 

Um dia, o suprimento de caracóis do Mediterrâneo deixou de ser o bastante para produzir a púrpura do Tiro. Marinheiros fenícios se lançaram ao mar para explorar lugares nunca navegados e enfrentaram as grande ondas e os mares não mapeados até a costa do norte da África. Essa aventura foi a chave que abriu o oceano Atlântico.

Graças a uma simples cor, a humanidade iniciou a jornada marítima em busca de ouro, de liberdade religiosa e de conquistas militares. Independente do resultado da combinação entre o frívolo e o prático que possibilitou a criação dos primeiros figurinos humanos, a invenção da púrpura de Tiro sinaliza que a beleza e o encantamento por uma tonalidade mudou o mundo para sempre. Ninguém precisa de cor, não tem utilidade médica, não alimenta nem protege. Ainda assim, foi o ponto de partida para uma aventura que nos trouxe até aqui.

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